Num raio de sol por detrás da gameleira, o safado espreita o pássaro negro dos sonhos dourados e de súbito, ao alcance da pedra da atiradeira, interrompe o glorioso voo. O pássaro cai dos céus e para a sombra do rasteiro e sorrateiro. Cambaleia, tenta voo e não consegue sair do chão. Surge a surpresa de repente, faz parecer o fim; sem a força do brilho do voo tem como último recurso a sombra raquítica da graminha que vai se dobrando aos poderosos passos do safado infeliz. Não basta tê-lo atingido, precisa ainda do corpo como troféu de sua glória. Destroncar o pescoço caso ainda não esteja morto. A insensibilidade é o prazer amplificado. A pequena sombra é o recurso infinito que confunde os olhos do gigante no meio do silêncio da impotência e do pavor.
“As Gameleiras”, páginas 41 e 42 do livro “Tear Africano: Contos Afrodescendentes”, de Henrique Antunes Cunha Junior.
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