Posso dizer que não consumir alimentos e outros produtos de origem animal parte do reconhecimento do sofrimento dos animais, de opor-me à matança, à exploração/violência, que são análogas, intrínsecas, já que não é apenas sobre seviciar um corpo, impor dor que posso chamar de “visível”.
A violência começa a partir da condição biológica desses animais, que também posso chamar de “bio-lógica mercadológica”, se estranha a uma natureza não transfigurada e determinada por atribuições de valor econômico.
Afinal, não é uma violência criar alguém partindo de um processo de desnaturalização? Porque é disso que trata o chamado aperfeiçoamento ou melhoramento genético que trouxe-nos à realidade atual do que se define amparado pela reificação não humana como “produção animal”.
Claro, a senciência é importante referência, básica por sua obviedade, mas se alguém apresenta-me, pela artificialização ou não, uma ideia de “ausência do sofrimento animal” ou de “violência ausente” no processo de “obtenção de alimentos”, devo contestá-la?
Posso admitir que a ideia de um animal não sofrendo é possível e assim outras pessoas podem alimentar-se dele ou do que ele gera? Não vejo isso como comum possibilidade, podendo referenciar o que citei antes, já que violência tem mais significações do que costumamos reconhecer.
Porém, se decido não balizar-me nesse referencial, que também pode não favorecer uma mudança de percepção, posso dizer algo que também considero óbvio.
Independente do que seja perceptível ou imperceptível, a abstenção de alimentos e outros produtos de origem animal não é apenas sobre dor se pondero sobre apropriação.
Afinal, apropriar-se de algo que não foi gerado por nós, e assim não podendo ser reconhecido como inerentemente nosso, é também, no campo simbólico, um ato de legitimação da instrumentalização não humana.
A ação, ainda que individual, ou percebida como distante do “campo industrial”, prescinde de reconhecimento de subjugação ou violência – porque independente disso o consumo não deixa de ser apropriação se refiro-me a algo que não existe essencialmente para o meu consumo.
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