Opinião

Não existe justiça em criar um animal para ser explorado

Vejo a objetificação como um problema-base da exploração animal (Foto: iStock)

Se um animal sofre em decorrência da má intervenção humana, o mínimo que posso fazer é mudar meus hábitos para não contribuir com isso e motivar os outros a fazerem o mesmo. Vejo muitas pessoas tentando rebater críticas à exploração animal com o suposto argumento:

“Meu primo não faz assim com os animais, meu tio faz de tal jeito.” Ok, mas o ponto fulcral não é esse, mas sim que nem você nem seu primo nem seu tio estão contribuindo para que os animais não sejam vistos como seres a serem explorados.

Objetificação é um problema-base

O fato deles não torturarem um animal não diz nada quanto a isso. Vejo a produtificação como um problema-base da exploração animal, e esta produtificação que pode ser vista como positiva por quem não observa o problema como um todo, mas apenas levando em conta um universo diminuto de experiências isoladas, requer uma perspectiva mais abrangente.

Até porque economicamente é realidade rasa, já que o grosso da economia baseada na exploração de animais vem do sistema industrial. Considere que mais de 80 bilhões de animais terrestres são mortos para consumo por ano.

Sendo assim, quando alguém cita um familiar que hipoteticamente não trata os animais da mesma forma que a maioria, isso a mim não diz nada, porque é apenas caso pontual.

Privados de serem quem são

De fato, esses casos pontuais eram uma espécie de “regra” no passado, até o momento em que o ser humano viu que era possível lucrar muito mais impondo mais privação aos animais. Ou seja, novas técnicas de manejo, mais tecnologia, menos espaço e mais dinheiro.

Os animais não terem sido confinados de forma ostensiva antes da Revolução Industrial não impediu que depois a maioria deles conhecesse um tipo de inferno terrestre. Afinal, como usar outro termo para nos referirmos a uma realidade em que tantos seres vivos sencientes são privados de serem quem são? De descobrir boas sensações, manifestar comportamentos naturais, trocar boas experiências, experimentar a liberdade; e isso começa logo no nascimento.

Além disso, se tivessem a oportunidade e o dinheiro para investir mais na exploração animal, quantos criadores que exploram hoje os animais de forma que chamam de “justa” e “respeitosa” não migrariam para um sistema que proporcionasse muito mais lucro, mesmo que custasse mais sofrimento aos animais?

Morte precoce por padrão

Será que os que alegam oferecer tratamento “justo” aos animais realmente preocupam-se com eles? Ou apenas agem de acordo com a conveniência e as próprias condições financeiras? Creio que é algo a se ponderar.

É importante não desconsiderar o fato de que o primeiro ser humano a explorar os animais em algum sistema de confinamento, que gera transtornos psicológicos e emocionais aos animais, era alguém que antes os criou “livremente” no campo.

Então volto a afirmar, um animal ser criado “livre” ou sem “muito sofrimento” não diz grande coisa. Porque a existência de supostos animais “livres” não impede que muitos outros vivam uma realidade incontestável de privação que, ao final, normalmente culmina em morte precoce.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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