Um animal tenta fugir do abate, mas até onde ele chegará? Pode-se ponderar sobre o que representa a sua tentativa de fuga, se será bem-sucedida, enfim, se ele viverá. Se é salvo de um fim miserável, celebramos e podemos dizer que houve uma prevalência da vontade não humana.
Ou seja, que trata-se de um animal que, contrariando probabilidades, revelou astúcia, percepção, força e inteligência, não submetendo-se a um fim miserável. A “vontade de viver” então é a mais comum das exaltações quando um animal escapa de receber a lâmina que consuma seu fim por degola.
Pode haver também uma conclusão de que trata-se de criatura de maior sensibilidade sobre a situação/realidade, ainda que não possamos falar por tal especificidade não humana, e porque não a vivemos; ainda assim podemos não hesitar em colocá-la num espaço de diferenciação em relação aos outros animais da mesma espécie ou que são criados para finalidade análoga.
Vejo nisso um romantismo problemático, porque é como dizer que aos outros faltou algo para que não experimentassem o fim, o que pode constituir uma referenciação de merecimento, em que o não morrer associa-se à ideação de “dignar-se”, do “requerer” ou do “conquistar”.
Histórias de animais que escaparam da redução a pedaços de carne, por exemplo, estão cheias de excepcionalismos, que funcionam como se pudéssemos observar um animal que não morreu como se fosse uma outra criatura, distinta e até essencialmente distinta das que não escapam da morte para consumo.
Há um grande volume de discursos que, intencionais ou não, convergem para a crença de que o não morrer para ser consumido faz de um animal alguém especial. E sendo esse animal especial, não são os outros? São desimportantes pelo que assimilamos como irresistências ou resistências vencidas?
Alguns “animais sobreviventes” são identificados como “símbolos de luta”. Posso então dizer que os outros são símbolos de “ausência de luta”? Ademais, os animais devem lutar para não serem mortos ou devemos adotar hábitos que contribuam para que fugas, independente de motivação, tornem-se desnecessárias?
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