Categorias: Opinião

O que pensamos sobre pendurar para matar?

O que pensamos sobre pendurar para matar? Se não é sobre um matadouro, qual é a nossa percepção? E se é sobre um matadouro, por que a percepção muda? Esse é o poder da normalização, da institucionalização?

A normalização surge pelo prazer resultante de corpos não humanos (carne como produto) pendurados de ponta-cabeça por correntes que prendem os pés. Afinal, o anseio é pelo descarne desses corpos.

Então é como se a carne dos animais não pertencesse aos animais, mas estivesse em seus corpos somente para que possamos removê-la. E tratamos isso como mero cultivo agrícola, um cultivar para ceifar. Assim a carne é um elemento provisório de um corpo não humano.

Que direito sobre a própria carne tem o animal pendurado pelo pé? Nunca é uma cena bonita, pacífica. O pé preso é imposição para o derramamento de sangue, para que do animal fique somente a carne, para que seja definitivamente separado dela.

Quando ouço pessoas falando em “carne de boi”, “carne de porco”, “carne de frango”, penso na estranheza que essas palavras despertam em mim.

Afinal, se a carne é desses animais, por que as arrancamos deles? Então reconheço mais uma vez que, para muitas pessoas, não é sobre ser, mas sobre remover, um pertencer provisório, como creem que deve ser.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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