Opinião

O rodeio não é patrimônio brasileiro

“Esses fragmentos imateriais não dependem do rodeio e sequer são promovidos por ele” (Foto: Reprodução)

Não são poucos os brasileiros que acreditam e defendem que o rodeio é um patrimônio cultural nacional. No entanto, se você realmente acredita nisso, saiba que você está equivocado. De acordo com o premiado ex-peão Luiz Henrique Mazza, que realizou um trabalho de pesquisa sobre a história da cultura caipira brasileira e concedeu uma entrevista à Agência de Notícias de Direitos Animais (ANDA) falando sobre a sua trajetória, tal crença não poderia estar mais longe da verdade:

“Eu que fui criado no meio rural, sou violeiro, estudei a fundo as raízes da cultura caipira brasileira, acho essa lei [do rodeio ser considerado um patrimônio cultural imaterial do Brasil] uma piada. De todas as modalidades praticadas oficialmente no rodeio brasileiro, somente a montaria em cutiano é nacional, o resto é tudo importado, tudo. Os trajes, os termos, os equipamentos, tudo importado dos EUA. Existem fragmentos culturais sim, claro, como comidas típicas, a viola propriamente dita, literatura, etc. Mas o rodeio, não. Esses fragmentos imateriais não dependem do rodeio e sequer são promovidos por ele.”

Além de ser importante ponderar também que o rodeio envolve condicionamento e violência contra animais, já que um touro, por exemplo, jamais agiria como em uma arena em condições normais, realmente não é difícil perceber que o rodeio não é patrimônio brasileiro. Afinal, o verdadeiro sertanejo brasileiro, criado na roça, não se veste e nunca se vestiu como o romanesco “cowboy americano”.

Basta considerarmos a história do caipira brasileiro para reconhecer que ele não tem nada a ver com o peão de rodeio, historicamente “americanizado”. Ainda assim, em 2016, foi sancionada pelo presidente Michel Temer a Lei 13.364, que elevou o rodeio e a vaquejada a “patrimônio cultural imaterial do Brasil”, uma lei que atende a um apelo com viés econômico, e não exatamente cultural, que desconsidera as implicações dessa prática para os animais submetidos a situações de violência e muito estresse. Até por que se o animal estivesse feliz na arena, ele não pularia agressivamente nem peões seriam pisoteados e acabariam feridos ou mortos.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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  • A tirania humana explora os animais a fim de obter dinheiro. As festas com sentimentos sádicos estimulam os cofres dos envolvidos. Não importa a origem dessa barbárie o que deve ser enfatizado, observado e conscientizado é a crueldade e o sofrimento dos animais inocentes nestes atos ditos tradicionais e culturais, isso precisa acabar.?

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