Ouviu barulho na carroceria. O gado chocava-se contra as laterais e o fundo. Na curva o caminhão patinou e viu dois rabos de boi para fora. “Ó, que isso? Querem tombar?”
Não havia mais veículos naquele pedaço de rodovia e retomou apenas uma pista. “Querem duas, mas não terão porque preciso voltar pra casa.” Minutos de silêncio e escutou disparos. Faz sentido? Cascos começaram a arranhar o assoalho.
Doía os ouvidos. “É só o que sinto.” Pediu silêncio. Quem ouvia? Gritou até ficar rouco e quase perdeu o controle da direção. Quando parou de reclamar, o som dos cascos se foi. Calmaria trouxe anestesia para o corpo. Só para ele.
Então escutou um berro, que virou dois, três, quatro…e um coro sofrido em sua resistência. Corpos caíam, iam de um lado para o outro, amontoando e virando um, grande um – cheios de patas em direções opostas e cabeças com olhos arregalados como sincronizados no avantajado.
Não conseguiam se levantar e não queria parar. “Que acabe logo toda essa tortura.” Já arrastavam corpos, e o atrito com o assoalho fazia som que disse ser apenas “duma coisa pegando.” “Tem sim.” Sentiu língua morna e grande que já esfriava tocando a mão direita fora do volante. “Parece dum cachorro grande adoentado.”
Observou de novo e viu nada. “Sei lá. Aqui na cabine só tem eu.” Coçou a barba e olhou pra trás, enxergando só barreira, que também é divisão. Aqui separa-se a vida da comida – pode-se dizer, que é uma coisa ou outra e vice-versa, depende da hora.
Silêncio seguinte virou som de balanço sem ser balanço. Sem escolher, pensou numa bocarra o mais aberta possível e fechando para nunca mais abrir. “E esse som de lâmina?” Deixou cair uma bala e quando foi pegá-la sentiu os dedos molhados. “Sangue? Sangue?” Abriu e caiu um pedaço de unha de boi.
Lá atrás, o som aumentou. Levou o caminhão para o acostamento e esperou. Olhou pelo retrovisor e viu sangue pingando. Esfregou as mãos por todo o rosto e desceu. Abriu a carroceria e sentou na beirada, sentindo cheiro de vida que não era mais vida.
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