A oposição à exploração de animais não é parte da história recente da humanidade, e sim parte da história da humanidade. O problema é que a ressonância que permite uma conexão comum depende de abrangência, de alcance.
No entanto, se penso em quem há séculos ou milhares de anos, antes da era comum, já posicionava-se contra a normalização da violência também contra quem não é humano, como posso ignorar que esses sujeitos são meus contemporâneos se suas ideias convergem às minhas, e que representam também a realidade de nosso tempo?
Eles não estão aqui, e eu não vivi o que viveram, mas se suas ideias chegam a mim e influenciam minhas ideias, para mim é como se fôssemos parte de uma mesma contemporaneidade, ainda que desconectada da temporalidade que marca a condição física do “estar no mundo”.
A mim, todo o referencial que existe hoje de contestação em relação ao que fazemos com os animais não pode ser desconectado de suas precedências. Podemos falar em movimento ou fenômeno moderno, pós-moderno, hipermoderno, mas ainda que sejam apontados como revolucionários, não são o que são ou foram ou que foram a partir de uma “gênese em seus próprios momentos”.
Posso dizer que sobre esse assunto tudo que penso é o que penso por mim, e posso alegar que desconheço todos esses em que penso, mas, ainda que os desconhecesse, as associações que não reconheço seriam possíveis, mesmo no desconhecimento do meu próprio entendimento.
Porque o conhecimento que recebemos, ainda que ignoremos a historicidade, ou exista a crença de uma desconexão em relação a ela, não significa que não citá-los ou identificá-los represente uma não influência de suas ações e pensamentos, porque ideias podem prevalecer sobre nomes e associações originárias.
Então não acho que o entendimento que tenho hoje sobre a questão da exploração animal é apenas resultado de minha própria consciência, se minha consciência desenvolve-se a partir de outras consciências.
Isso não é sobre denominações, mas compreender também que há efeitos transferenciais que podemos até chamar de “inconscientes” ou “maquinais” que ajudam-nos a pensar como pensamos em um contexto em que podemos articular melhor nossas oposições à exploração animal.
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