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Piñatex, o futuro do couro está nas folhas de abacaxi

Carmen Hijosa: “Procurei criar um novo tecido que pudesse ser produzido comercialmente, mas com impacto social e econômico positivo” (Fotos: Divulgação)

Carmen Hijosa é uma designer espanhola que entende tudo de manufatura e design de artigos de couro. Na década de 1990, depois de trabalhar nessa indústria por tantos anos, inclusive como consultora, ela recebeu um convite para atuar no Centro de Design das Filipinas.

E foi lá que sua jornada em busca de alternativas ao couro começou tendo como premissa o desenvolvimento de um material sem nada de origem animal e que pudesse gerar o mínimo de impacto ao meio ambiente, além de contribuir com pequenas comunidades agrícolas.

“Procurei criar um novo tecido que pudesse ser produzido comercialmente, mas com impacto social e econômico positivo, além de uma baixa pegada ecológica no seu ciclo de produção”, informa Carmen, que tem doutorado em alternativas naturais e sustentáveis ao couro pela Royal College of Art, do Reino Unido.

O título foi obtido como reconhecimento pelo desenvolvimento da Ananas Anam, projeto que fez parte do programa de incubação InnovationRCA e que deu origem a Piñatex, tecnologia que tem sido utilizada por inúmeros fabricantes de calçados que querem substituir o couro por uma alternativa mais benéfica ao meio ambiente e que não envolva nenhum subproduto resultante da morte animais.

A preocupação de Carmen com o impacto da produção em massa de couro, e também com a agressão ambiental dos insumos químicos utilizados nessa indústria, fez com que ela encontrasse uma alternativa nas subaproveitadas folhas de abacaxi.

Com essa matéria-prima, a senhora Hijosa desenvolveu um tecido de alta qualidade que não apenas substitui matérias-primas como o couro de origem animal e o couro sintético, mas também favorece uma conexão entre pessoas, ecologia e economia.

“As fibras são extraídas por meio de um processo chamado decorticação, que é colocado em prática na plantação pela comunidade agrícola. Com a Ananas Anam, desenvolvemos a primeira máquina decortificadora automatizada para ajudar nesse processo, permitindo que os agricultores aproveitem maiores quantidades de folhas”, explica.

Assim que as fibras são extraídas das folhas, a sobra de biomassa pode ser utilizada como um fertilizante natural rico em nutrientes, ou também como biocombustível. “Nada é desperdiçado. Então as fibras passam por um processo industrial que forma à base da Piñatex. Os rolos de malha não tecida então são enviados à Espanha, onde passam por um processo de acabamento especializado”, revela.

Depois de finalizado, o material se torna um tecido macio, flexível, de longa durabilidade e com aspecto muito semelhante ao couro. E são essas características que têm atraído empresas do mundo todo que hoje buscam matérias-primas sustentáveis para a produção de calçados, roupas, decoração de interiores e estofamento automotivo. A Nature, da Dinamarca, e a Mercer Amsterdam, da Holanda, são duas empresas que recentemente lançaram calçados com a tecnologia Piñatex.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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