Categorias: Opinião

Por que deixar alguns animais em paz e não outros?

Foto: Eyes on Animals

Passo por um parque todos os dias, onde observo humanos contemplando os animais que lá vivem. Gostam de vê-los imperturbados, fazendo o que querem, de acordo com seus interesses. Não se vê alguém interessado em causar-lhes mal. Muito pelo contrário. Veem importância em deixá-los viver, em deixá-los interagir com seus semelhantes. Enfim, viver como podem viver.

Acredito que nenhum daqueles humanos gostaria de ver um daqueles animais feridos, sendo agredidos, tendo seus interesses violados, a partir do que é possível expressar um interesse. Há satisfação humana por todos os lados, no simples ato de observar, de ver aqueles animais vivendo, socializando, se comunicando, comendo, nadando, correndo, descansando.

São os olhos humanos que chegam aos animais, não seus corpos, não uma arbitrária intervenção. O ver é somente o ver, e o ver como admitir que sobre o outro não interfiro desnecessariamente no exercício de ser.

Imagino que se eu perguntasse a algumas dessas pessoas se, com base nas características observadas, elas reconhecem aqueles animais como indivíduos, acho pouco provável que receberia resposta negativa. O que chama atenção é exatamente o que é, por inerência, o indivíduo na sua expressão, na potência do ser, sua constituição do viver.

Mas deve ser o olhar para aqueles animais somente o olhar de consideração em relação àqueles animais? Por que não levar essa consideração à vida não humana para além do parque, por todos os lugares, para a vida como um todo, para a consideração do que é o outro e pelo que é o interesse básico do outro?

Por que não desejar a imperturbabilidade àqueles que sofrem pelo que é dominante sobre o interesse humano que pesa sobre tantos animais?

Claro que uso como exemplo essa realidade percebida no parque, mas vale para qualquer situação em que nos deparamos com pessoas valorizando a vida não humana ao mesmo tempo em que, por contradição, não valorizam vidas não humanas, com base em seus interesses (como os de consumo) e nos fins apoiados em relação a tantos determinados animais. Isso é coerente e justificável?

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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