Categorias: Opinião

Por que impor sofrimento aos animais?

Foto: HSA

Posso pensar no sofrimento não humano e alegar que “é apenas parte da realidade do mundo”. Mas se esse sofrimento não é inevitável, e sim gerado por intenções e vontades prescindíveis, é justificável não considerá-lo com seriedade?

Se há uma escala de ponderação sobre sofrimentos, e há tipos de sofrimentos que classificamos como inadmissíveis por seus males inerentes, é justo reconhecer alguns como mais dignos de reprovação do que outros?

Mesmo não sentindo o sofrimento animal, a ideia que associo ao impacto de sua experiência de dor é suficiente para não querer prolongá-la nem gerá-la, mesmo que de forma indireta.

Não reconheço sofrimento apenas nas formas brutais de sua consumação – na vitalidade sendo suprimida por instrumentos de violência ou no que podem chamar com mais facilidade de maus-tratos ou crueldade a partir da percepção de “explícita agressão”.

Não entendo o sofrimento apenas como resultado de um “excesso”, de uma ação percebida como “não institucionalizada”, porque acreditar nisso é como dizer que na ausência do que entendo como “excesso” o sofrimento é uma ausência.

Também há sofrimento no ato de estar para ser submetido, na ausência de si mesmo, no não pertencimento, nas imposições de trânsito e em outras inúmeras impossibilidades condicionadas, que são massivamente resultados da normalização institucionalizada.

E isso não é sobre imaginar sentir o que o outro sente ou acreditar na mimetização dessa experiência, e sim pensar em como somos condicionados a normatizações em que o sofrimento que não é nosso, mas que dele somos causa, é visto mais como realidade quando nos limitamos a reconhecê-lo como “ato incomum que causa estranhamento.”

No entanto, não é porque somente um ou alguns atos despertam isso em nós que todos os outros representam violências ausentes.

Acredito que um dos maiores obstáculos em relação ao reconhecimento do sofrimento não humano é olhar para questões de violência e sofrimento buscando, em primeiro lugar, superar as conveniências normativas que determinam de maneira artificiosa o que devemos ou não interpretar como aceitável ou inaceitável.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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