No ano passado, Ray Monk, professor de filosofia da Universidade de Southampton, na Inglaterra, e autor do livro “Inside the Centre: The Life of J Robert Oppenheimer”, publicou um artigo no New Statesman America explicando por que ele se tornou vegano e por que todo mundo deveria adotar o veganismo. Monk conta que o anúncio foi uma surpresa para a sua família, amigos e colegas:
Até então, eu não era nem vegetariano. Eu adorava salsichas, comia frango várias vezes por semana e não conseguia me imaginar vivendo sem queijo. Claro que sei há muito tempo que a criação de animais é um negócio horrível. Como todos, tenho visto aqueles registros angustiantes das condições enfrentadas por aves, gado e porcos em fazendas industriais. No entanto, de alguma forma, pude colocar essas imagens no fundo da minha mente enquanto comprava, pedia e comia alimentos [de origem animal].
Há muito tempo estou convencido de que uma dieta rica em carne é ruim para nós, e que essa dieta está ligada a muitos dos problemas de saúde no mundo desenvolvido: obesidade, diabetes, doenças cardíacas e assim por diante. Mas foi a mesma experiência de quando eu era fumante. Aceitei a evidência de que fumar causa câncer, enfisema e muitas outras condições crônicas, e sempre tive a sensação de que um dia eu desistiria. Mas continuei adiando o inevitável. Não foi antes dos 47 anos, quando já fumava há mais de 30 anos, que finalmente parei.
E agora desisti de consumir produtos de origem animal. O que motivou isso, contudo, não foi a preocupação com a minha saúde. Nem a preocupação com o bem-estar animal. A princípio, foi algo sobre o qual eu não tinha pensado antes: os devastadores efeitos ambientais da criação de animais. Tudo começou com um artigo no The Guardian sobre um relatório da WWF que chamou a atenção para a enorme escala dos danos infligidos ao planeta pela produção de alimentos para animais de fazenda.
O estudo descobriu que “60% da perda global de biodiversidade se deve às dietas à base de carne”. Só a oferta de alimentos no Reino Unido, afirma, “está diretamente ligada à extinção de cerca de 33 espécies”. Eu sabia que a criação de animais era cruel, e eu sabia que isso estava nos tornando insalubres, mas eu não sabia que isso estava destruindo nosso planeta. Comecei a ler mais sobre os efeitos ambientais da criação de animais e, no final do dia seguinte, decidi desistir da carne, dos ovos e dos laticínios.
Agora estou convencido de que tornar-se vegano é a melhor coisa que qualquer indivíduo pode fazer para ajudar o nosso meio ambiente. A criação de animais está causando danos em uma escala que simplesmente não pode continuar. Por exemplo, é um dos principais contribuintes para a mudança climática, emitindo mais gases do efeito estufa do que todos os carros, aviões e navios do mundo juntos. E os gases em questão são principalmente metano e óxido nitroso, ambos muito mais prejudiciais do que o dióxido de carbono. Vários estudos recentes chegaram à conclusão de que a única maneira pela qual a UE pode atingir suas metas de emissões é se afastando de uma dieta à base de carne.
Os males da agricultura animal intensiva foram detalhados nos últimos anos por Philip Lymbery, chefe executivo da [organização de defesa do bem-estar animal] Compassion in World Farming, em seus livros “Farmageddon” e “Dead Zone”. Mas Lymbery não vai longe o suficiente. Ele não sugere que todos se tornem veganos. Ele acredita que a solução é um retorno às tradicionais fazendas mistas de antigamente, nas quais os campos passavam por rotação de cereais e grama, e os animais podiam pastar.
Infelizmente para Lymbery, há evidências convincentes de que esta não é a solução. Este ano, um grande relatório sobre essa questão foi publicado pela Food Climate Research Network em Oxford. Sua principal autora, Dra. Tara Garnett, resumiu suas descobertas: “O gado pastando é um contribuinte líquido para o problema climático, assim como todos os animais… Se indivíduos e países com elevados níveis de consumo querem fazer algo positivo em benefício do clima, manter seus atuais níveis de consumo, mudando simplesmente para o consumo de carne bovina proveniente de animais alimentados com capim não é uma solução. Comer menos carne, de todos os tipos, é sim.”
Se você come carne de porco, frango ou ovos, então está contribuindo para reduções colossais na biodiversidade; se você come carne ou queijo ou bebe leite está favorecendo o aquecimento global. E se você acha que comer peixe é o caminho a seguir, você deve ler o livro “The End of the Line: How Overfishing Is Changing the World and What We Eat” ou “O Fim da Linha: Como a pesca predatória está mudando o mundo e o que comemos”, de Charles Clover. A demanda atual por produtos de origem animal simplesmente não é sustentável e um enorme dano está sendo causado na tentativa de mantê-la. Nós temos que mudar.
Há, no entanto, algumas boas notícias. Um estudo de Oxford publicado no ano passado nos Anais da Academia Nacional de Ciências antecipou os efeitos globais a partir de agora até 2050 de quatro diferentes dietas: rica em carne, com pouca carne, vegetariana e vegana. A conclusão foi que se comêssemos menos carne, cinco milhões de mortes por ano poderiam ser evitadas até 2050; se fôssemos vegetarianos, o número seria de sete milhões; e uma transição para o veganismo pouparia oito milhões de vidas por ano. Então, sim, ajudaria muito simplesmente comer menos carne, mas tornar-se vegano não seria apenas a melhor coisa para o planeta, mas também seria a melhor coisa para você.
Mesmo com esse tipo de evidência, algumas pessoas temem que, mesmo que isso [a abstenção do consumo de alimentos de origem animal] permita maior longevidade, uma dieta vegana possa não fazer tão bem. Os veganos são frequentemente estereotipados como tendo pele ruim e sendo fracos e letárgicos. Ainda é cedo, mas essa não tem sido minha experiência. Eu perdi um pouco de peso e ganhei energia e vitalidade. Me sinto ótimo. Sinto falta de salsichas e queijo, mas não tanto quanto eu pensava. Para o bem do planeta, para o bem dos animais e para o nosso próprio bem, o veganismo é uma ideia cujo tempo chegou.
Referência
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