Categorias: Pequenas Narrativas

Presunto também é violência

Ilustração: Vanni Cuoghi

Depois de dar uma mordida no sanduíche de presunto, o abriu e ficou olhando as duas fatias rosáceas – uma por cima da outra – quase fixadas, como se existissem uma para outra.

“Um dia, depois de brincar, lavei as mãos e minha mãe me deu um sanduíche desse. Eu tinha que idade? Quatro anos, se não me engano. Gostei de comer.”

Lembrou que seus primos menores falavam “pisunto” ou “pesunto”. Desde então, comeu, comeu e comeu. “O que é o presunto afinal? Posso te dizer que é de animal, porco, mas o que exatamente? Admito que não sei responder.”

Fez rápida pesquisa. “Pernil! Então a gente come fatias de perna de porco. Agora posso imaginar não apenas fatias de presunto, mas que estou comendo a perna de alguém. Isso é esquisito.” Será que com quantas pernas de porco se faz uma seção de presuntos no supermercado?

Nunca gostou de apresuntado, por causa do amido e por ter mais gordura. “Mas onde não há amido, então há mais carne de perna de porco. É isso.” Imaginou um porco aproximando-se sem perna e ao lado uma fileira de bandejas de presunto equivalente ao membro ausente.

“É de se pensar quantas pernas de porco comi ao longo da vida em forma de presunto. O fabricante diz que é carne nobre. É intrigante essa romantização.” Viu imagem de um porco pendurado pelos pés antes do abate e observou a parte que dá origem ao presunto.

“Como refutar? Sem porco sangrando de ponta-cabeça, sem presunto.” Queria saber também por que o presunto é rosado e descobriu que é por causa do corante de inseto – cochonilha. “É de se imaginar, até porque não tem como um pedaço de carne sem vida e vendido embalado ser corado naturalmente…”

Começou a pensar sobre o cheiro do presunto, que não é do porco em estado natural, e sobre os químicos que garantem a conservação. “O que seria da perna de um porco morto deixada em estado natural?”

Coçou a cabeça, fechou o sanduíche e olhou pela janela. Presunto também é nome mais palatável, dissociativo, mais digerível. “Quantos porcos estão perdendo suas pernas agora?”

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David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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