Categorias: Opinião

O problema para o animal está em ser escolhido para ser morto

Foto: Pexels

Se alguém é escolhido para ser morto, o que importa é como será morto e para que fim ou o ato de ser arbitrariamente morto?

Quando se fala em exploração animal é comum o foco ser mais direcionado a algumas práticas, considerando que algumas se destacam pelo número de animais afetados.

Assim, a prioridade é manter o foco na realidade desses animais que compõem “os grupos maiores”, até porque, embora os hábitos de consumo tenham suas diferenças, quando trata-se de “animais-alvos”, os considerados “mais afetados” são pensados com mais frequência.

Isso pode levar à crença de que é imperativo se preocupar mais com alguns animais do que com outros entre os explorados. Isso se dá quando pensamos em animais enquanto espécies menos do que como indivíduos afetados pelo especismo.

Chamar atenção para a enormidade é uma forma de conscientizar e sensibilizar as pessoas, mas é ponto também de discussão, porque pode dar impressão de que a consideração deve ser condicionada ao avultamento numérico.

Para o animal, como valor em si mesmo, que diferença faz para ele os números? A relevância para o animal está em ser escolhido para ser morto ou em fazer parte de um grupo maior ou menor?

Olhar para os números é relevante enquanto reflexo do absurdo da violência contra outros animais, mas crer que o antagonismo deve basear-se nisso pode ser problemático, porque permite que alguém argumente que determinado animal não é tão afetado enquanto “espécie”, assim recorrendo ao equívoco da abstração, que é não pensar no animal não humano enquanto indivíduo.

O mesmo pode ser dito de práticas que as pessoas dizem que “não matam tantos animais quanto outras” – superficializando o impacto de algumas em relação a outras. O que essa consideração transforma na vida do animal escolhido para morrer por prática “de menor expressão numérica”?

Diríamos que se alguém morre por “uma prática menos cotidiana”, sua morte é de menor importância? Ademais, a ideia de “não ser tão afetado enquanto espécie” é estranha, porque o animal, se morto, não pode ser pensado dessa forma, porque ele não sobrevive enquanto parte da espécie, não sendo menos afetado se, como indivíduo, é privado de viver.

Leia também “O animal não cabe dentro do interesse humano“, “A morte é uma libertação para o animal explorado?“, “O cuidado que recebe a carne não recebe o animal vivo“, “De quais maus-tratos pode se livrar um animal criado para ser maltratado?” e “Se dada a oportunidade de liberdade a um animal criado para ser morto, como ele reagirá?

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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  • Ótimo texto, precisamos repudiar o especismo em todas suas aplicações. No entanto, apesar de todos os animais serem igualmente importantes se estivermos falando de ativismo isso leva a outras ponderações, afinal Como os recursos são limitados é um importante pensar o maior impacto deles, então se faz necessário um sistema de priorização para quem está em piores condições, dito isso, é preciso ver os que mais sofrem e mais morrem.

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