Quando a vaca não tinha mais leite e estava debilitada decidiram enviá-la para o matadouro. Arrastaram-na com uma corrente e a forçaram caminhão adentro. Úberes estavam murchos e esfolados, estriados.
A vaca queria o que não poderia ter. Olhos miravam um lado e o corpo ia para outro, no arbitrário desencontro – arrastando no chão, esfolando. Gemido passou despercebido. O corpo ainda tinha número, para lembrar que a vaca não era dela.
“Chega uma hora que é preciso separar a vida do corpo, quando o que importa é o corpo sem vida”, disse um homem. Assustada, urinou enquanto corpo e corrente faziam barulho contra a rampa – combinação do que é vivo e do que não é, animal e ferro.
Urina escorreu, deixando marca provisória no solo que o sol aquecia. Vaca nasceu ali e morreria fora dali, não morte natural. Quando vaca pode ter morte natural? O que é natural sobre ela?
Embaixo dela, o bolsão movia-se, ela sem querer, como bexiga vazia de pele, como se pudesse se abrir a qualquer momento. “Quando esvazia desse jeito é hora de tirar a vida. Quem quer manter?”
Teve cinco bezerros. Não deixaram conviver com nenhum. Logo abrirão sua carne, como abriram a deles.
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