Posso olhar para um animal e torcer para que seu sofrimento seja esvaziável, amparando-me em minha decisão de não contribuir com sua subjugação, assim como fez Kafka ao observar os peixes no aquário.
Porém, por mais justa que eu considere minha intenção, que leva-me a uma decisão, quando não compreendida como importante ou imperativa por uma maioria, o que pode mudar? Mudo a mim mesmo, não o destino desse animal e de outros que continuam sendo seviciados por esse sistema.
Carrego uma centelha de entendimento de “minha exclusão em relação à sua miséria”, como se retirasse-me das degradações do seu ser, podendo olhá-lo sem sentir-me desconfortável sobre meus hábitos, como também fez Kafka.
Mas e o seu desconforto, reiterado, quando termina? O meu é desimportante perante o seu, que não é humano e inconsiderado. Então sinto-me na repetição de uma inconclusão, de um vazio indefinível, de um fundo fervilhante onde poucos grãos, que somos, movem-se sem o desejo irrefletido de espremer seu corpo até deixar de sê-lo.
Há também uma corrente-mor, de imensidão de grãos, que reside num fundo morno, e repousam sobre seu corpo sem vida, pressionando-o, acelerando o momento de devorá-lo em morte como fizeram em vida.
Esperam por sua descaracterização, que é também medida de conforto (não seu), querem-no não como é, e sim como pode ser, sem ser. Na imersão da dominação a brevidade pode ser longa, se penso, partindo do meu referencial humano, que ser dominado é ser submetido e ser submetido é ser sofrido, ainda que não reconhecido ou percebido.
E o tempo que nos impõem parece sempre mais longo do que o tempo que não nos impõem. Não é sobre a percepção do tempo por quem não é humano, que dirão ser uma impossibilidade, mas sobre o que é feito nessa situação-tempo sobre a qual pouco racionalizamos causa/efeito. E pra onde vai a luminosidade desse tempo afugentado à escuridão da qual depende sua violenta conversão em alimento?
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