Quantos animais nascem para não viver? Pode parecer uma pergunta estranha, mas se um animal nasce como resultado de um interesse de consumo humano, seu nascimento é condicionado a um não viver.
Suas reações não mudam seu destino. Sua boca aberta, seus olhos arregalados, seu incômodo. Um animal que nasce em um contexto de exploração pode concentrar e externar o máximo possível de reprovação em relação à sua situação, mas isso não alterará seu fim.
Porque ele é visto apenas como mais um animal entre tantos que já reagiram da mesma forma e nem por isso deixaram de ser submetidos aos interesses humanos. Há uma grande distância entre a expressão de um animal e uma preocupação em validar a vontade associada a essa manifestação não humana.
E há sempre um momento em que a resistência não humana deixa de ser notada, porque não apenas é normalizada como passa a ser ignorada. A conclusão então é de que “é apenas mais uma”, como outras que surgiram e surgirão. O animal então não é um indivíduo, mas um “outro”, que depois de morto dará lugar a “outro” – reforçando uma ausência de reconhecimento do ser.
Assim o lamento de um animal, ainda que seja um lamento, perde ressonância diante da experiência humana que a define apenas como uma “repetição”, e a “repetição” passa a ser assimilada também como trivialidade, um estranho elemento cada vez mais aceitável de cotidianidade.
Quando penso nisso, sempre me recordo de “É preciso tomar partido”, de Voltaire, em que ele cita crianças que choram com a morte do primeiro animal que veem matar para consumo, mas riem da morte do segundo.
Por influência dos mais velhos, são levadas a crer que o embrutecimento e a naturalização da violência em relação a outras espécies não apenas é parte aceitável da realidade como uma parte que deve ser estimulada para sua perpetuidade.
Trazendo essa reflexão para o nosso tempo, o impercebido agravo maior é que a violência não precisa ser praticada ou testemunhada, mas somente financiada. Assim o dinheiro é usado para explorar, matar e negar direitos, e sem que haja o reconhecimento de um mal.
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