Categorias: Pequenas Narrativas

Quem deseja ser criado para o abate?

Ilustração: Tommy Kane

Depois de visitar criações de bois, porcos e frangos, imaginou como seria viver como esses animais. “Quem pode sentir prazer no aprisionamento, nas limitações de espaço e circulação? Não que eu diga que esses animais queiram viajar pelo mundo, mas sem possibilidade do que pode ser definido como viver à sua inerente maneira, manifestando comportamentos naturais, como ver isso com bons olhos?”

Pensou nos bilhões de animais que viram produtos sem conhecer o sol, nascendo em galpões, de onde sairão somente para morrer. “Há uma luz que entra, sorrateira, mas que neste universo pouco pode-se distinguir pela ausência o que seja natural e artificial. Eles sentem falta de coisas que nunca conheceram, porque esta também é parte de suas naturezas. Mas se me diz que a caminho do matadouro o sol pode tocá-los, o que isso nos incita se entendemos que é momento precedente ao fim de suas vidas?”

Um amigo que o acompanhou disse-lhe que pelo menos não pode haver infelicidade na vida bovina quando se fala em pecuária extensiva, já que muitos animais ocupam até mais de um hectare. “Eles vêm e vão, interagem, comem bom capim, recebem ração e suplementação. Isso é ruim? Como?”

“Mas por quanto tempo e para onde vão quando já não é permitido viver? Não é ao matadouro onde se encontram e desencontram tantos outros? Destino é sempre o abate, o tenham como finalidade inicial, final ou o que podemos chamar de residual, quando o aproveitamento parcial da carcaça é maneira de minimizar ‘prejuízos’. E que prejuízo? O único prejuízo é do animal que viveu para a servidão. E se me diz que foi bem nutrido, refuto na hora que foi alimentado para produzir ou morrer, não para gozar da vida ou ter vontade prevalecida.”

“Só que esse é o sentido de estarem no mundo, do contrário, não estariam.” “Pois bem, se fosse um deles, o que preferiria? Viver por tempo determinado por quem o trouxe ao mundo para lucrar com sua existência, que não é definida exatamente como existência, ou não ser trazido? Não esqueça que o que chamam de morte humanitária é tiro no crânio ou eletrocussão seguidos de degola.” Sorriu sem sorrir e coçou a cabeça.

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David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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