Quem gostaria de sofrer como um peixe?

No filme “Fish Tank”, lançado no Brasil como “Aquário”, de Andrea Arnold, há uma cena em que Connor (Michael Fassbender) pesca um peixe com as mãos. O animal é colocado sobre a grama e há um foco na respiração do peixe, no seu esforço em resistir. O movimento de sua boca, sua agonia, se tornam centrais.

Isso faz parte de uma realidade ordinária, porque qualquer humano pode submeter um peixe a isso, seja por um interesse em comê-lo ou “somente” em tirá-lo da água. Independentemente da finalidade, o mal para o peixe é concreto.

A motivação humana não altera a reação do peixe, não reduz sua agonia, porque não muda o que ele sente de tão desconfortável em relação a esse tipo de privação e domínio.

Tyler (Rebecca Griffiths), que está em transição da infância para a adolescência, pergunta se o peixe está morrendo. Connor então mata o peixe, como se estivesse “aliviando a agonia do animal”. Mas a agonia não surge desse domínio, de ser privado do seu próprio interesse em relação com a água?

Tyler, chocado, questiona o que Connor está fazendo e ele apenas diz que “é melhor dessa forma”, dando a entender que “livrou o peixe da agonia”. É uma cena que expõe o paradoxo dessa interação, em que não se considera a ação primeira (pescá-lo), mas o suposto “alívio” (“acelerar a morte”) de uma experiência pouco considerada na dimensão de importância para o próprio peixe.

Connor acha que está sendo “compassivo” com o peixe que tirou da água, mas toda sua ação expressa o contrário. A imersão na inconsideração normalizada faz com que a “conveniente consideração” seja vista como uma ação “compassiva”, ainda que não seja – o que reflete uma dissimulação tão comum na relação humana com tantos outros animais. Afinal, há uma forma aceitável de matar quem não quer morrer?

Connor nesse momento é também simbólico de algo que está além de sua ação de capturar o peixe que pode ser pensada como isolada. Ele representa a ampla dimensão do ser humano na naturalização da arbitrariedade contra espécies tratadas como “disponíveis” para uso humano.

Como parte de um “tempo de lazer em família”, ele invade o habitat de um animal e o priva de seus interesses apenas por acreditar que pode fazê-lo porque trata-se de um animal vulnerável que não pode prevalecer sobre sua ação.

Quando Connor levanta o peixe sem vida, Tyler diz que não comerá o peixe. Essa recusa é indissociável da experiência de testemunho do que houve com o peixe – não somente sua morte, mas o que também precede a morte, como a resistência do animal.

Há uma recusa de Tyler em ingerir quem foi morto, já que comer o peixe é comer o corpo morto. Esse antagonismo surge somente com Tyler, que é o mais novo do grupo, e que portanto situa-se entre um tipo de incômodo e sua normalização que se intensifica na vida adulta.

Essa cena também permite uma conexão com a facilitação de um consumo irrefletido – como o que comumente não é questionado também porque não há um testemunho sobre o mal que atinge o animal. Tyler também participa disso.

Isso torna mais fácil, mesmo quando considerada a inevitabilidade da morte (não há consumo de animais sem morte), a possibilidade de não pensar na morte ou de não pensá-la como algo que possa impactar em um interesse de consumo.

Afinal, saber que há morte, dependendo da finalidade e sua normalização, pode levar a uma conclusão que raramente é sobre a morte considerada na perspectiva de impacto para o animal como vítima.

Claro que isso não quer dizer que tal experiência de testemunho impactaria em todos, mas o exemplo de Tyler evoca a potência desse testemunho. O incômodo de estar presente, de assistir a morte, é o que conecta o humano, a partir de seu desconforto, com o animal vitimado em seu desconforto.

É a impossibilidade de pensá-lo somente nos limites do animal como fim no interesse humano que mina a mentalização ideal de manutenção do especismo.

Observação

Enfim, sabemos que as pessoas não negam, por exemplo, que comer carne é comer parte de um animal morto, mas a diferença está não nesse reconhecimento, mas no que se organiza mentalmente a partir desse reconhecimento. Afinal, humanos podem sempre pensar nesse tipo de morte em desconexão com os interesses do animal. Sua normalização favorece isso o tempo todo.

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David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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