Categorias: Opinião

Saber que um animal sente dor significa ponderar sobre essa dor?

Uma pessoa pode saber que um animal sente dor, mas não ponderar sobre o impacto dessa dor. Não é difícil para qualquer ser humano ter uma percepção sobre a dor do outro, que não precisa ser humano.

Claro que a percepção de dor leva em conta reações às quais por precedência já associamos ao sofrimento – como as manifestações expressas pelo corpo ou por meio do corpo.

Então o sofrimento, que não é nosso, tem impactos diferentes para diferentes pessoas, e não é o impacto que sente o animal não humano. Assim são pensáveis os estágios de percepção que nos motivam a uma reação reincidente, que pode ser também inação, ou dissidente.

A reação reincidente associa-se aos efeitos normalizados ou estacionários, como, por exemplo, quando o sofrimento animal não motiva em mim o desejo de contribuir para evitá-lo, ainda que eu sinta algum tipo de desconforto ao testemunhá-lo ou sabê-lo.

Impossível é dizer quantas pessoas podem sensibilizar-se com uma dor que não é sua nem humana, porque a empatia não é objetiva, e fatores de construção social também ajudam a moldá-la ou a intensificá-la.

Os processos de dissimulação que permeiam a vida social humana são sempre mais complexos do que imaginamos, assim como suas representações. A ideia da conexão, por exemplo, tão usada em referência ao fim da desconexão que define um animal como produto, não pode ser entendida como uma via, um caminho, uma unilateralidade.

Porém, reforçamos que sim quando achamos que o que sentimos ou entendemos é transferível aos outros como se fossem nós mesmos. Mas não sendo nós, como esperar que os outros sejam reprodutores da totalidade de nossas reações?

Isso não é possível, porque a gradação e os estágios são imanentes a qualquer processo de reconhecimento que possa levar a uma reação dissidente, o que inclui também o sofrimento animal não humano.

Portanto, acredito que transformações substanciais também dependem de uma somatória de vozes, de nossa capacidade em nos deslocarmos para fora de nós mesmos, buscando referências que não são somente a nossa própria voz.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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