Caminhão que levava gado para o matadouro tombou na rodovia. Pessoas se aglomeravam em torno dos bois tentando capturá-los e levá-los para casa. Um homem desceu do carro armado e gritou:

“Pra lá! Ninguém vai tocar nesses bichos. Vim aqui para colocar ordem na situação.” O revólver rutilava e todo mundo se afastava. Havia grande espaço entre o interventor e os demais.

Atrás dele, só os animais – silenciosos com suas escoriações. “Acham que podem chegar aqui e levar a boiada? Vocês são ladrões? Não têm vergonha na cara?” Ninguém respondeu.

“Caiu na rua, não tem dono. Essa é a lei não escrita”, retrucou um velho. “Entendi. Então se o senhor cair na rua depois de um acidente a gente pode fazer o que quiser?” “Não, estou falando deles.”

“Eles quem?” “Esses bichos aí, comida.” “Se o senhor não percebeu, eles estão bem vivos, e acredito que até mais do que o senhor.” O velho se calou.

“É o seguinte, o meu parceiro está chegando com outro caminhão. Vamos colocar esses animais na carroceria e seguir viagem. Se alguém se aproximar, não me responsabilizo pelo que acontecer. Não quero machucar ninguém, mas se for preciso, não hesito.”

O caminhão chegou, os animais foram realocados – um a um. “E a gente, como fica agora?” “Vocês querem carne? “Sim!” – gritaram. “Cortem um pedaço da perna de vocês e comam. Empresto a faca.”

Mesmo notando gente furiosa, gargalhou e mostrou o revólver outra vez. “Quem fizer graça vai acabar deitado, daí o churrasco está garantido. Problema resolvido. Que tal?” Só esgares. Nenhuma palavra.

O caminhão eclipsou no horizonte e uma F-1000 encostou. “Cadê a boiada?” “Quem quer saber?” “Sou o dono da carga.” “Ora, seu funcionário acabou de levar a bicharada.” “Que funcionário? Não mandei ninguém aqui.” “Então danou-se.”

Na carroceria do caminhão, peão enxergou uma frase recém-escrita à faca: “Não importa a espécie, quem sente dor, não merece desamor, porque sem empatia a vida não serena, grita ao vento o que a ignorância condena.”

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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  • Os animais não são comida e não merecem morrer , deixem eles vivos pelo amor de deus chega de maldade tenham piedade com os coitados o mundo seria melhor se todo mundo fosse vegetariano vegano , eu sou vegetAriana por amor aos animais

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