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Fico surpreso quando escrevo sobre a relação de algum escritor ou escritora do passado com o vegetarianismo e alguém aparece rebatendo de forma passional; tentando desconsiderar a sua contribuição, alegando que ele ou ela não consumia carne simplesmente porque tinha nojo ou porque queria fazer frente a um princípio estético no ambiente burguês.
Então quer dizer que há escritores ou escritoras que não consomem alimentos de origem animal e publicam livros abordando as questões morais e éticas do vegetarianismo simplesmente para aparecer? No mínimo curioso alguém dedicar tanto tempo a algo em que não acredita. E mesmo que fosse verdade, isso não anularia a sua colaboração, caso tenha transformado vidas.
Quando falamos em vegetarianismo e veganismo, penso que o maior cuidado que devemos ter é um só – não desmerecer alguém simplesmente porque é diferente de nós em diversos aspectos. O mais importante é que haja união em torno do que preza o vegetarianismo e o veganismo.
Sei que muitas vezes somos reféns das armadilhas do ego e passamos a querer que os outros tenham os mesmos parâmetros de vida que nós. Porém o mundo não se pauta na nossa vida, nem as outras pessoas. Então devemos aprender a respeitá-las nas suas diferenças, desde que isso não signifique prejuízo a nada ou ninguém.
Na minha opinião, tudo que contribui com o vegetarianismo e o veganismo é bem-vindo. Vejo como um equívoco julgar os vegetarianos do passado com ênfase em conceitos atuais. É muito importante entender que foi a contribuição de cada um desses pensadores, independente de motivação, que ajudou a moldar o vegetarianismo ao longo dos séculos, inclusive culminando no surgimento do veganismo como o conhecemos.
Embora há quem despreze os românticos porque eram burgueses, claro que não todos, é importante reconhecer sim que eles foram determinantes na história do veganismo no mundo ocidental, inclusive estou preparando um artigo que fala exatamente disso. E as pessoas que costumam desqualificá-los são aquelas que têm inclinação política sob viés fundamentalista, e muitas vezes não percebem como isso pode ser nocivo.
Acredito que não devemos julgar a consciência vegetariana de séculos atrás usando como referência o presente. Ademais, penso que já temos pessoas demais trabalhando contra o que o veganismo defende. “Não mais agora, ele mata o cordeiro que o observa e terrivelmente devora sua carne mutilada”, escreveu o escritor romântico Percy Shelley em um excerto do poema Rainha Mab, publicado como prefácio da obra A Vindication of a Natural Diet, publicada em 1813.
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