Categorias: Opinião

Submeter animais a usos e abusos leva a outros usos e abusos

Foto: Luis Tato/We Animals

Normalmente as pessoas não consideram que submeter animais a uso e abuso para fins específicos leva a situações em que mais animais serão submetidos a outras formas de uso e abuso. Podemos ser contra algumas práticas que envolvem os animais e crer que não precisamos ser contra outras. No entanto, qual é a base do uso e abuso legitimados, institucionalizados? Não é a crença de que não há nada de errado em explorar animais?

E se exploramos “alguns”, não desejamos explorar outros? E até onde chegaremos? E quais males ampliaremos e perpetuaremos? A reflexão sobre isso vai ao encontro do diálogo entre Sócrates e Glauco em “A República”, de Platão, quando convergem para o entendimento de que, dependendo da intenção, um precedente é um risco de alargamento de um mal. E um mal não reconhecido como um mal é um mal maior.

Hoje vivemos o paradoxo do maior período de possibilidades de conscientização que é também o período de maior exploração animal. Ou seja, rejeição e aceitação estranhamente crescem ao mesmo tempo. A maioria da população ainda não vê um mal na subjugação animal. E o que esse não ver permite? Não favorece a crença que mantém uma ideia de normalidade sobre a instrumentalização não humana?

É mais fácil acreditarmos que outras espécies podem ser submetidas ao interesse humano quando naturalizamos determinadas práticas de exploração não humana, porque se não fazemos isso, como poderemos legitimá-las ou pelo menos considerá-las? Não é necessária uma base de articulação que tenha uma fundamentação em outra aceitação?

Se alguém diz que seria interessante criar uma outra espécie de animal para fins de consumo, devo ignorar que esse pensamento é estimulado pela normalização da subjugação envolvendo outros animais? E o entendimento de que se outros são explorados, logo mais animais podem ser também, não é consequência da crença no arbitrário supremacismo humano?

Quando alguém tende à exploração de outras ou mais espécies, esse alguém ampara-se no hábito já normalizado, portanto não acredito que não há outro caminho de desestímulo à exploração não humana senão rejeitá-la em sua base.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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