Quanto mais um animal parece-nos “estranho” em sua condição física, de dissemelhança, o processo de tirar-lhe a vida (não vista nem tratada como sua) é reconhecido como menos incômodo, porque persiste uma ideia de que “oblitera-se algo (alguém) muito diferente de nós”, e “quanto mais distante de nós, menos difícil é fazê-lo.”
Porque usa-se como baliza do que pode-se ou não fazer com os outros a percepção da “ausência humana no outro”, que é critério supremacista comum, já que “se não posso associá-lo a mim”, pelas diferenças que defino como estranhezas, e que usa-se para validar preterições de direitos, minha inconsideração em relação ao outro (não humano) tem como norteador um exercício frequente de “expulsão do que não sou”.
Porque subjugar e matar são formas de expulsão, impostas pelo interesse na desarticulação do todo. Assim entendo que submeter animais ao consumo humano é expulsar/destruir o todo pela parte.
Há um processo de minoração que intercala dois processos de produtificação, do “estar” e do “não estar”, que envolve a “criatura de mobilidade” e a “criatura de imobilidade”. Enquanto a primeira é o sujeito irreconhecido como sujeito submetido a um processo de “moldagem para consumo”, o segundo é a sua condição final que desconecta-se de sua presença precedente por ação irreversível, seu fim.
E a continuidade dessa realidade, e podemos pensar na grande quantidade de animais a quem atribuímos um reproduzível ou repetível “vazio da identidade”, que é parte de uma sistemática supressiva, torna esses animais alvos de grande atribuição de “estranheza”, ainda que tenha como efeito uma “não estranheza”, pela massiva repetição de sua condição.
Então o “estranhamento” em relação aos animais subjugados é essencializado porque serve a um distanciamento que demanda menos da presença física humana do que da preservação de uma consciência fatalista. Ademais, requer o esvaziamento de um “estranhamento” em relação ao ato de “terminá-los”. Assim, a “estranheza” serve à manutenção/perpetuação da “não estranheza”.
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