Opinião

Como o veganismo está ganhando espaço na Argentina

Opções do Bio Solo Orgánico, Loving Hut, la reverde Parrillita Vegana, Estilo Veggie, Pizza Vegana e Saublée Vegana (Fotos: Divulgação)

Quando entrei pela primeira vez em Buenos Aires, há dois anos, ouvi os portenhos – moradores de Buenos Aires – chamarem a sua cidade de “a capital mundial da carne bovina”. O problema é que sou vegetariana. E apesar da Argentina ainda ser um dos países que mais consome carne, em especial a carne bovina, os tempos estão mudando. Hoje, Buenos Aires tem mais de 60 restaurantes vegetarianos e veganos, além de muitos outros que oferecem opções baseadas em vegetais.

“A cultura da carne na Argentina ainda é muito forte”, diz Vanina Compagnet, dona da churrascaria La Reverde Parrillita Vegana: “Mas o veganismo está em ascensão. A cada ano, mais e mais pessoas estão começando a ver os animais de forma diferente. É um progresso lento, mas emocionante para nós” Você vê pessoas preparando carne assada nas ruas, e comer um bife está na lista de muitos turistas. Mas o recente boom vegano indica que Buenos Aires está seguindo as tendências mundiais e começando a atender aqueles que preferem não comer carne.

Como resultado da migração em massa da Itália para a Argentina no final do século 19 e início do século 20, grande parte da gastronomia argentina tem raízes na culinária italiana, que é naturalmente [ovolacto]vegetariana. Massas, pizzas, risotos e gelato [sorvete italiano] aparecem frequentemente em cardápios de restaurantes tradicionais argentinos, embora os veganos sejam frequentemente pressionados a encontrar opções sem creme [de leite] e queijo.

O primeiro restaurante orgânico certificado da Argentina, o Bio Solo Orgánico, abriu suas portas há 16 anos no bairro boêmio de Palermo. Os pratos populares incluem o risoto de quinoa, um toque latino-americano em um clássico italiano, seitan à milanesa e escalope de pão ralado. Para a sobremesa, o flan vegano de leite de coco com doce de leite é tão delicioso quanto sua contraparte não vegana – sem dúvida até mais. E sua curada lista de vinhos veganos apresenta uma série dos vinhedos de Mendoza, incluindo o Caligiore e o Bodega Vinecol.

“No passado, tive clientes me dizendo que uma dieta vegetariana é nutricionalmente deficiente. Mas nos últimos anos, o veganismo e o vegetarianismo se tornaram mais comuns. Acho que em parte porque as pessoas estão se tornando mais conscientes em relação ao sofrimento dos animais, além dos benefícios à saúde – atletas de alto desempenho estão se voltando para uma dieta baseada em vegetais – e agora há médicos que recomendam esse tipo de estilo de vida”, diz Claudia Carrara, fundadora e proprietária do Bio.

Lionel Messi e Sergio Agüero, dois proeminentes jogadores de futebol argentinos, contribuíram para essa mudança de atitude ao se tornarem vegetarianos durante a Copa do Mundo. Ambos os jogadores abandonaram carnes, laticínios, massas e açúcar, como aconselhado pelo médico italiano Giuliano Poser. Agüero disse que seguir o conselho do médico fez desaparecer suas recorrentes lesões musculares.

A influenciadora portenha do Instagram, Vicky Jackson, também percebeu mudanças na percepção do veganismo e do vegetarianismo em Buenos Aires. Após o sucesso de suas receitas na mídia social, ela abriu o Wellbar em maio deste ano, um espaço de alimentação saudável e sustentável em Palermo. O cardápio é predominantemente vegetariano e vegano, embora inclua algumas opções para atrair quem come carne. Há smoothies à base de leite de amêndoas, tigelas crudívoras, bom café, bolos veganos, saladas e sopas. O brunch de fim de semana atrai uma galera legal, que come os waffles veganos de banana com manteiga de amêndoas com chocolate.

O sucesso do Wellbar demonstra o importante papel que o Instagram tem na mudança de percepções do veganismo. “O Instagram ajudou as pessoas a verem que os vegetais podem ser deliciosos – ótimas fotos e receitas fáceis tornam esse estilo de vida mais atraente. Acho que houve uma mudança na sociedade, especialmente em Palermo, impulsionada pela geração Y que querem alimentos mais saudáveis ​​e inovadores. Os jovens percebem que boa comida não precisa de uma fatia de carne. Os restaurantes estão se conscientizando sobre essa mudança e estão reagindo a isso”, diz Jackson.

Embora essas opções de clean eating sejam bem-vindas na terra da carne, nem todo vegano ou vegetariano está preocupado com a saúde; muitos querem apenas versões livres de animais dos pratos com os quais cresceram, e os turistas gostam de experimentar versões veganas de pratos locais.

Inaugurada em maio de 2017, a La Reverde Parrillita Vegana é um restaurante especializado em carne vegana que preza pelo “dirty eating”. Parece qualquer outro restaurante tradicional ao longo das estradas perto do Congresso Argentino, mas esse é o lugar para provar versões veganas de pratos tradicionais.

Os moradores avaliam bem o choripán vegan (um sanduíche cheio de seitan – [proteína de] glúten de trigo – em vez de carne) e o vacío ([equivalente ao] bife de fraldinha) emparelhado com chimichurri. “Queríamos replicar as churrascarias ‘de barrio’. Nosso objetivo era nos distanciarmos dos restaurantes vegetarianos mais sofisticados. Estamos desafiando a ideia de que o veganismo e a saúde sempre andam de mãos dadas”, diz Vanina Compagnet, chef e dona da La Reverde.

Outros restaurantes que não oferecem alimentos de origem animal estão seguindo o exemplo, abandonando o trigo integral e oferecendo às pessoas a comida que realmente desejam. Estilo Veggie, uma lanchonete de fast food em Palermo, respondeu a uma demanda por mais fast food vegano com suas “asinhas de frango” e hambúrgueres veganos. Em reconhecimento a esta nova demanda por comida vegana, duas novas franquias da cadeia vegana internacional Loving Hut surgiram nos últimos quatro anos em Buenos Aires.

Para todas as novas aberturas e mudanças de atitudes, o movimento vegano na Argentina ainda tem alguns obstáculos a superar. A maioria dos alfajores – o biscoito nacional da Argentina – ainda contém gordura animal, assim como muitas empanadas e os populares croissants servidos no café da manhã argentino, conhecidos como medialunas.

Pizzas veganas e empanadas estão agora disponíveis na Pizza Vegana, uma rede que abriu sua primeira filial em 2015. Uma de suas pizzas mais populares é La Verdolaga, uma base sem glúten coberta com queijo vegano, acelga assada, “creme” de girassol, queijo parmesão vegano e aioli de manjericão.

Para o café da manhã vegano tipicamente argentino, os visitantes podem comprar algo na pastelaria Saublée Vegana em Belgrano. A confeiteira local Silvia Retamar se estabeleceu [com a Saublée] em novembro de 2015, depois de veganizar receitas que aprendeu em escolas de confeitaria em Buenos Aires e Paris. Em seu balcão, há vários produtos assados ​​e fritos, incluindo donuts recheados com doce de leite, churros mergulhados em chocolate, alfajores e medialunas.

Significativamente, não são apenas os jovens ou os radicais que estão mudando de opinião sobre o vegetarianismo e o veganismo: isso também está acontecendo no coração do estado argentino. Em julho de 2017, os funcionários da Casa Rosada, a sede presidencial, experimentaram “Lunes Vegano”, ou segundas livres de carne, na cantina. Este ano a Casa Rosada planeja trazê-la de volta permanentemente. No ano passado, uma lousa do lado de fora da cantina dizia: “Segunda-feira livre de carne: melhora sua saúde, desafia você a fazer algo novo, é boa para o planeta. Coma vegetais. Coma de maneira diferente.”

Artigo de autoria da jornalista britânica Elizabeth Sulis Kim, publicado originalmente com o título “Buenos Aires: How Argentina’s meat-loving capital is going vegan”. 

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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