Categorias: Pequenas Narrativas

A criança chorou quando viu a cabra sangrando

Foto: Unparalleled Suffering

A criança chorou quando viu a cabra sangrando. Ouviu várias vezes que era para o Natal. Cortaram a cabra em pedaços e guardaram em um grande refrigerador. Quando não tinha ninguém por perto, abriu e ficou olhando os pedaços gelados. “Pra isso?”, disse.

No Natal, era como se a cabra nunca tivesse passado por lá. Comiam suas partes. Falar em cabra não incomodava. Cabra era um prato, um pedaço, um assado, uma coisa temperada pra mastigar.

“Ela tinha vontade”, disse. Ninguém se importou. “Por que no Natal é assim?”, arriscou de novo. Ninguém se interessou em responder. Queriam que comesse a cabra. Não quis. Acharam que era frescura. Pensou na pele arrancada da cabra, expondo a vermelhidão da carne.

Não deixaram chegar perto. Mandaram se afastar. Tinha sangue na terra. Veio a lembrança do gemido, da esgoela. Continuava repetida no ouvido, sem parar. Via a carne e ouvia o gemido. Passou a mão na garganta.

Achou que comer cabra é esquecer a cabra. Depois já era outro animal, um que não viu morrer. Também não quis comer. E outro. Não de novo. Pensou nos olhos da cabra. “Por que não pensam na vontade da cabra?”, insistiu. Ninguém ouviu, ou apenas não se importaram de novo.

Não encontrou a cabeça da cabra. Não sabe o que fizeram com ela. “Bem mansa, como se não fosse morrer. Isso foi antes da faca”, conversou sozinha. Tentou imaginar as coisas que a cabra gostaria de fazer.

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David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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  • O ser "humano" está a anos luz da sua iluminação. Enquanto comer cadáveres de seres inocentes, está ainda na Idade da Pedra, como os neanderthais.

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