Quanto mais julgamos a dor de um animal como distante da nossa, mais acreditamos que temos o direito de submetê-lo ao nosso interesse, porque cremos que a nossa dor é referência, e toda maneira de sofrer que não mimetiza a nossa, ou não traz semelhanças com a nossa, é “digna” de menor ou nenhuma consideração.
É como dizer que outros animais deveriam aprender a “expressar sofrimento como nós” e, se não são capazes, motivo algum há para não dominá-los, fustigá-los e matá-los. Podemos não reconhecer isso como verdade, porque está tão inserindo em nossa maneira de viver que a percepção é de que a estranheza subsiste no discurso, não na realidade.
Então é comum rejeitar a palavra, não a situação, porque se a palavra evoca em nós um desagrado que julgamos mais relevante do que o de quem é alvo de uma situação de dominação, a nossa preocupação é com a manutenção da crença no supremacismo autodado, que tendemos a preservá-lo, independente das consequências.
E o atribuímos porque acreditamos que ninguém além de nós pode contestá-lo, porque os inferiorizados são subalternizados, e sua legitimidade não depende da moralidade, mas somente de um processo de continuidade balizado pelo estado de normalidade.
Assim a dimensão de uma dor que não é nossa passa a ser também minimizada, porque, mesmo no reconhecimento da experiência de dor, manifestamos em relação ao outro que sua dor pode “até ser significante”, mas não superável em relação à motivação humana de gerá-la.
O que é uma “diferença” no outro passa a ser usado como validação da “indiferença”, porque sua dissemelhança torna-se também um fator de atribuição de visibilidade invisível, se o que (quem) vemos é somente o que queremos, prescindindo do(e) que (quem) é.
É a potência do interesse exploratório que permite-nos o apego à representação unilateral de uma realidade, que é “nossa verdade de consumo”, e por sê-la é encarada como “universal” e “única na sua validade de ser”, independente de ser essencialmente destrutiva.
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