Categorias: Opinião

A dor não humana deve ser ignorada por não ser nossa?

Foto: Aitor Garmendia

Quanto mais julgamos a dor de um animal como distante da nossa, mais acreditamos que temos o direito de submetê-lo ao nosso interesse, porque cremos que a nossa dor é referência, e toda maneira de sofrer que não mimetiza a nossa, ou não traz semelhanças com a nossa, é “digna” de menor ou nenhuma consideração.

É como dizer que outros animais deveriam aprender a “expressar sofrimento como nós” e, se não são capazes, motivo algum há para não dominá-los, fustigá-los e matá-los. Podemos não reconhecer isso como verdade, porque está tão inserindo em nossa maneira de viver que a percepção é de que a estranheza subsiste no discurso, não na realidade.

Então é comum rejeitar a palavra, não a situação, porque se a palavra evoca em nós um desagrado que julgamos mais relevante do que o de quem é alvo de uma situação de dominação, a nossa preocupação é com a manutenção da crença no supremacismo autodado, que tendemos a preservá-lo, independente das consequências.

E o atribuímos porque acreditamos que ninguém além de nós pode contestá-lo, porque os inferiorizados são subalternizados, e sua legitimidade não depende da moralidade, mas somente de um processo de continuidade balizado pelo estado de normalidade.

Assim a dimensão de uma dor que não é nossa passa a ser também minimizada, porque, mesmo no reconhecimento da experiência de dor, manifestamos em relação ao outro que sua dor pode “até ser significante”, mas não superável em relação à motivação humana de gerá-la.

O que é uma “diferença” no outro passa a ser usado como validação da “indiferença”, porque sua dissemelhança torna-se também um fator de atribuição de visibilidade invisível, se o que (quem) vemos é somente o que queremos, prescindindo do(e) que (quem) é.

É a potência do interesse exploratório que permite-nos o apego à representação unilateral de uma realidade, que é “nossa verdade de consumo”, e por sê-la é encarada como “universal” e “única na sua validade de ser”, independente de ser essencialmente destrutiva.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

Posts Recentes

O bezerro no prato e o som de tripa de carneiro

Em “O Polonês”, seu mais recente romance publicado no Brasil, o escritor sul-africano J.M. Coetzee,…

6 dias ago

O abate que (quase todos) ignoram

No livro “A Idade do Ferro”, de J.M. Coetzee, que se passa durante os últimos…

2 semanas ago

Uma reflexão sobre a violência por trás do leite

No filme belga “O Jovem Ahmed”, dos irmãos Dardenne, Ahmed (Idir Ben Addi), após cometer…

3 semanas ago

Por que ser cruel com os animais?

Quando se aceita que não há crueldade no que se faz contra os animais, como…

4 semanas ago

Ser vegano “é coisa de mulher”?

Ser vegano “é coisa de mulher”? Autoras como Carol J. Adams trazem contribuições para pensarmos…

1 mês ago

Uma crítica ao “veganismo de mercado” a partir do pensamento de Habermas

Estudado em escolas de comunicação social do mundo todo e falecido recentemente, o filósofo e…

2 meses ago