Categorias: Pequenas Narrativas

De quais maus-tratos pode se livrar um animal criado para ser maltratado?

Observou a descida forçada de porcos em frente a um matadouro. Um dos porcos tentava recuar, se encolher na sua corpulência, e tinha uma destacável quantidade de vergões na pele.

Pensou em denunciar o estado do porco, mas logo o animal desapareceu do seu campo de visão. Foi como se tivesse estado ali somente por um instante, mas tão impactante como se estendesse para mais.

Viu quando o choque com picana elétrica o fez acelerar matadouro adentro, entre grunhidos e gemidos. Ficou em conflito sobre como denunciar maus-tratos se tudo ali evoca isso. De quais maus-tratos pode se livrar um animal criado para ser maltratado?

De um tipo ou de outro? Porque não permitirão que de todos. E os demais que são institucionalizados e geralmente apoiados? O próprio viver, pelo que não pode ser, é uma experiência de maus-tratos.

O que é essa experiência de viver para ser separado, mutilado, confinado e transportado para ser forçado a descer e morrer brutalmente lá dentro senão maus-tratos? Os maus-tratos estão somente nos vergões ou na condição imposta a esse animal e que não pode ser dissociada de um inerente mal?

A carne é um produto de maus-tratos, não pelo que, por conveniência e legalmente, são maus-tratos, e que podem parecer que não ocorrem o tempo todo, mas nunca deixam de ocorrer, e sim pelo que é irrealizável senão por um exercício de subjugação sobre um corpo que não manifesta desejo de ser subjugado.

O olhar comum para os maus-tratos é seletivo sobre o que são maus-tratos. Maus-tratos são o que não ameaça o interesse humano, porque se entram em conflito com o interesse humano dirão que não há maus-tratos. E como isso é perpetuado senão pelo consumo?

Leia também  “Um porco escapa do abate e volta pelos outros“, “O mau cheiro vem do porco ou da exploração do porco?“, “Dando choque em porcos no matadouro“, “A miséria dos porcos vem do apetite humano“,

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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  • Imagine uma situação em que, ao solicitar ao garçom aquele prato que tem barriga de porco (pra ficar no exemplo acima), e que, de repente, em vez de uma bossa nova lounge ou ritmo equivalente, as caixas de som do restaurante reproduzissem os gritos agudos e guturais de porcos sendo abatidos enquanto os clientes comem... Será que dessa forma tão explícita e direta essas pessoas fariam a conexão entre o que comem e o que há por trás do que pagam?

    Elas querem acreditar que ao pedir a conta estão pagando pelo prato e pelo serviço ali oferecidos. Não querem lembrar que financiam também cenas como a da imagem acima.

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