A miséria dos porcos vem do apetite humano

Eu atravessava um caminho estreito de concreto que conectava e desconectava pocilgas quando as luzes se apagaram. Digo que conectava porque trazia a presença humana e desconectava pela imposição de barreiras à circulação não humana

Foto: Aitor Garmendia

Eu atravessava um caminho estreito de concreto que conectava e desconectava pocilgas quando as luzes se apagaram. Digo que conectava porque trazia a presença humana e desconectava pela imposição de barreiras à circulação não humana.

Para os porcos, são fronteiras. Para humanos, apenas separações convenientes. Na ausência de luz, que durou cerca de dez minutos, notei que os suínos ficaram mais calmos. Foi como se a escuridão dissipasse os temores ou incômodos trazidos pela luz artificial.

Com a luz, havia agitação, sem, se desvanecia, embora no primeiro minuto notei que três porcos demonstraram surpresa ou reação inesperada em forma de guincho – não do tipo que principia medo, mas dúvida, curiosidade.

Talvez fosse raro ou não associassem com um episódio tão recente em que a luz tivesse se extinguido naquele horário. Percebi também como tinham seus marcadores instantâneos de mudança e como alguns transmitiam sua percepção do momento aos outros.

Comecei a considerar mais o que a luz representa para um animal em condicionamento coletivo naquelas condições. Quantas são as possibilidades de inferência? Não poderia enumerar, porém, logo inferi que era indicativo de que a claridade trazia mais imposição do que a escuridão – embora tudo ali fosse imposição.

O espaço não era largo, o que impedia distância entre eles, mas comunicavam o que percebiam e pareciam atribuir importância a essa expressão social. Por que não atribuiriam? Estavam ali e era ali dentro que poderiam criar vínculos por poucos meses – até o dia de serem mortos.

Cinco minutos depois, prestei mais atenção no silêncio da maioria e notei que um porco elevou a cabeça e olhou para mim. Não vi seu corpo todo, não poderia dar detalhes sobre sua aparência. O que chegava até mim e destacava-se era um par de olhos curiosos.

Ou seja, um órgão que reconheci como tão semelhante ao meu próprio e que passa por tanta impercepção por ser parte de um corpo não humano, preparado para a faca. “O que o motiva a projetar esses olhos em minha direção que não uma manifestação tão coletiva quanto individual de consciência?”

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