Opinião

Até quando cavalos serão forçados a puxarem carroças no Brasil?

Como ter uma vida saudável quando se é submetido a uma rotina diária puxando carroça? (Foto: Departamento de Bem-Estar Animal/Prefeitura de Gravataí)

Seria difícil quantificar quantas notícias foram publicadas no Brasil em 2020 envolvendo maus-tratos contra cavalos forçados a puxarem carroças. De Norte a Sul do país, isso ainda é realidade comum.

Sem dúvida, porque muitos brasileiros ainda a veem como normal, e por consequência de um ancestral e cultural condicionamento que nos leva a crer que os animais podem ser usados para qualquer fim em nosso benefício.

Não é raro nos depararmos com cavalos com expressão cansada ou de sofrimento nas ruas – basta observarmos com atenção ao encontrá-los puxando carroça. Há sempre sinais de que existe algo de errado.

Também não são poucos os que trazem no corpo sinais de violência legitimada e sem prazo para chegar ao fim. Relhadas ou chicotadas são exemplos de que trata-se de uma atividade que existe em consequência da subjugação de outra espécie.

Por que ainda temos carroças de tração animal em circulação?

Afinal, violência é parte de um processo de dominação que leva ao condicionamento. No entanto, a intenção não é demonizar carroceiros. Até porque quem tem esse tipo de atividade como fonte de renda está imerso na naturalização da exploração não humana, logo não vê nada de errado no que faz.

Porém, em 2021, deveríamos ter carroças de tração animal em circulação? As alternativas existem e podem ser incentivadas pelo poder público – cavalos de lata e qualificação profissional seguida por inserção no mercado de trabalho são exemplos em algumas cidades do Brasil.

Se isso já é realidade em alguns municípios, por que não estender a todo o país? Há carroceiros que atuam nesse ramo que alegam que não sobreviveriam sem a atividade. Mas se for dada a oportunidade de lucrar o mesmo ou até mais, não há razão para recusar.

Programas de financiamento e ofertas de crédito para carroceiros

Programas mais inclusivos de financiamento ou ofertas de crédito facilitados para aquisição de veículos motorizados para realização de fretes também têm sido cada vez mais citados em projetos que visam o fim das carroças no Brasil.

Isso é vantajoso para quem atua como carroceiro porque um veículo motorizado não requer os cuidados específicos diários que um animal utilizado como meio de tração animal demanda. Além disso, essas carroças interferem no trânsito na área urbana e não são rápidas.

E cavalos, como não são máquinas, perdem vigor e força dependendo do calor. Também desenvolvem problemas de saúde precoces em decorrência de grande esforço físico. Tudo isso contribui para a redução da expectativa de vida do animal. Afinal, como ter uma vida saudável sendo submetido a uma rotina diária puxando carroça?

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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