Bezerro que seria descartado caiu do caminhão. Não sabia o que fazer. Acho que não entendia o que significava estar ali. Quem entenderia com tão pouco tempo de vida? Tarde tranquila, de pouco movimento. Um carro na pista desviou e uma criança acenou.
Levantou, e mancando, atravessou a rodovia. Ficou parado por minutos. Não correu, não fugiu. Não sabia pra onde ia. Sentia falta dos outros. Na carroceria, trocavam calor, estranho conforto, uma família do acaso – sem pai, sem mãe, só criança – nascidos no mesmo dia.
Não sentia prazer em estar ali. Era algo novo, e o que é novo nem sempre parece bom se experimentado sozinho quando dominado por estranheza. É assim, creio sim. Começou a tentar mugir – abafado, fraco, incerto. Olhava para um lado, para outro. “Pra onde ir?” É uma possibilidade de ilação.
De repente, começou a correr atrás do caminhão desaparecido. Mancava e doía, era o que se via. Sentia falta dos irmãos de poucas horas. Desconhecia destino, mas, na ausência de mãe, aquilo significava não estar sozinho. Ele sabia, sabia sim. Por que não? É a vontade social.
Correu pelo acostamento até cansar, recebendo buzina, faróis altos e desviando de pedaços de borracha queimada no asfalto. Mas era criança e uma hora também cede. Mais carros passavam e pessoas acenavam. Achavam fofo o bezerro com coração na testa.
Todos desapareciam mais adiante, e o bezerro continuava ali, como se a estrada fosse esquisita morada. Não sabia se havia mais alguma coisa, porque não lembrava ou não conhecia.
Quando a noite chegou, irmãos de poucas horas já não transmitiam calor, não miravam olhos, não compartilhavam estranho conforto, e porque não existiam. Nunca mais se veriam. Bezerro com coração na testa jamais saberia, e continuou percorrendo a rodovia.
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Lindo texto com um final que me atrevo a modificar assim: "...e continuou percorrendo a rodovia até que foi resgatado e levado para um Santuário onde descobriu que a vida é bela na companhia de humanos bons e junto de seus irmãos em espécie." É que achei que ele merecia isso, coitado.