Categorias: Opinião

Brasil sedia evento internacional sobre mudanças climáticas e desmatamento, mas não deve falar sobre a produção e o consumo de carne

Criação de animais para consumo é uma das principais causas do desmatamento da Amazônia (Foto: Nelson Feitosa/Ibama)

No dia 2 de agosto, o Jardim Botânico do Rio de Janeiro vai sediar a edição brasileira do Diálogo Talanoa, uma plataforma internacional que discute as mudanças climáticas, aquecimento global e o desmatamento. Entre os assuntos mais controversos que serão discutidos estão a Moratória da Soja, um pacto entre o governo e o setor produtivo que promete acabar com a comercialização do grão proveniente de áreas desmatadas da Amazônia. Embora a iniciativa seja positiva, um problema que parece não ter ganhado a devida importância é a associação direta das mudanças climáticas e do desmatamento com a criação de animais para consumo.

De acordo com o artigo “O desmatamento na Amazônia e a importância das áreas protegidas”, que faz parte do Dossiê Amazônia Brasileira 1, publicado pela Universidade de São Paulo (USP), o modelo da ocupação demográfica da Amazônia legal nos últimos cinquenta anos tem levado a níveis significativos de desmatamento, resultante de múltiplos fatores, entre os quais, a pecuária. A área cumulativa desmatada na Amazônia legal brasileira chegou a cerca de 653 mil quilômetros quadrados em 2003.

Segundo o artigo “Causas do desmatamento no Brasil e seu ordenamento no contexto mundial”, publicado pela Revista de Sociologia e Economia Rural, na Amazônia Legal, onde o desmatamento provocado pela pecuária é predominante, apenas 50% dos municípios contam com a presença de um órgão fiscalizador – o que claramente não coíbe o desmatamento e também inviabiliza o sucesso da chamada Moratória da Soja.

No curta-metragem “Eu sou Mudança – Consumo Consciente”, lançado pelo Google em junho do ano passado, é destacado que mais de 750 mil quilômetros quadrados da floresta amazônica foram destruídos, e dois terços foram transformados em pasto, o equivalente ao tamanho da Espanha.

Já o documentário “Sob a Pata do Boi”, de Marcio Isensee e Sá, lançado este ano, informa que a Amazônia tem hoje 85 milhões de cabeças de gado, três para cada habitante humano. Também enfatiza que na década de 1970 a floresta estava intacta e a quantidade de gado equivalia a um décimo do rebanho da atualidade. Hoje, encontramos uma área que pode ser comparada à extensão territorial da França desmatada. Desse total, 66% transformada em pasto.

Um evento promissor como o Diálogo Talanoa, que poderia ir mais a fundo na discussão das causas, parece não ver grande relevância no debate sobre a criação de animais para consumo. Prova disso é que a produção de soja é citada vagamente no material divulgado pelo Ministério do Meio Ambiente. Ou seja, não se vê uma preocupação em relacionar a produção de soja com a criação de animais e o consumo de carne.

Ainda assim, o Brasil tem como meta reduzir 37% das emissões de gases de efeito estufa até 2025, com indicativo de cortar 43% até 2030. A Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) brasileira versa sobre o reflorestamento de 12 milhões de hectares e no aumento da produção de bioenergia sustentável. Porém, como tudo isso pode ser possível ignorando outras causas urgentes associadas ao desmatamento e às mudanças climáticas?

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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