Categorias: Opinião

Caça é assassinato

Há quem alegue que a caça é atividade clemente, “porque põe fim à miséria de um animal que vive o constante temor sobre o próprio sofrimento”. Esse tipo de conclusão tem análogos de mais de mil anos e ainda hoje é utilizada, de forma antropomórfica, para justificar a ideia de que “o destino do animal na natureza é pior do que aquele que o ser humano pode lhe proporcionar”.

Há uma evidente romantização, como se quem matasse um animal por meio da caça aliviasse “a dor do animal de viver”. Ou seja, o pior não é ser morto pelo ser humano, mas estar sujeito “às misérias de uma vida brutal na natureza”. O ser humano então, nessa quimera, é o “possibilitador de um fim misericordioso”.

Sem dúvida, uma ação que consiste no ser humano decidindo o que é aceitável ou não sobre o não humano e em conformidade ao seu interesse. E se alguém dissesse o mesmo sobre humanos? Há assassinos em série que também já justificaram seus terríveis crimes sob o argumento de “libertar pessoas da miséria mundana.”

A natureza, como espaço natural, então é classificada como má, terrível para muitos animais, e o ser humano, na forma de caçador, como bom, que reduz o que seria terrível para esse animal se não fosse ele o responsável por matá-lo.

Fazer a caça, como escolha arbitrária, parecer coisa boa sempre foi um dos nortes visando “dar sentido positivo à sua realização”, porque raro é encontrar o caçador que dirá que mata apenas pelo prazer de matar, porque sente-se bem em tirar vidas. Porque, na franqueza dessa admissão, não estaríamos diante de um mesmo argumento que, se não fala-se em tipo de vítima, qualquer um pensaria logo num assassinato?

E por não ser humano, não deve ser pensado de tal forma? O que não há de medíocre na caça ao fazê-la parecer nobre, quando sua principal justificativa é um exercício de poder sobre uma criatura que não tem condições de superar a malícia da violência imposta por uma ação furtiva com uso de armas e/ou armadilhas?

O argumento de que “caçar é boa ação” também desconsidera a crueldade inerente, a satisfação decorrente da exposição do corpo. E por que não ver como o que realmente é, que é a celebração dum assassinato?

Leia também “Em ‘Pequeno Grande Homem’, protagonista decide se matar após testemunhar crueldade da caça” e “Caça aos javalis, um engodo a favor da crueldade“.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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