Categorias: Pequenas Narrativas

O homem que salvou o porco que ele deveria matar

José Américo conta como um dia, pela primeira vez, evitou a morte de um porco que ele deveria matar em um pequeno matadouro no Norte do Paraná. Não era novo no serviço, muito pelo contrário. Há anos atuava matando porcos.

Era o último animal a ser abatido em seu turno. Já cansado, olhou aquele porco, que, segundo ele, encostou a cabeça na mesma mão que usou para golpear com faca a garganta de tantos porcos.

Mais um animal vulnerável. Bastaria atordoá-lo, pendurá-lo para degolá-lo e testemunhar a sangria. No pequeno matadouro, não havia divisão entre essas tarefas. José Américo era responsável pelas duas, assim como outros dois funcionários.

Como já era tarde, ele ficou sozinho com o último porco a ser morto. Para erguê-lo de ponta-cabeça, na hora certa ou errada, bastaria acorrentar-lhe os pés e acionar a máquina. “Então é você”, lembra de dizer.

Ele esperava que o porco reagisse, que fizesse alguma coisa. Como isso não aconteceu, ficou incomodado, porque para ele significava que o porco que o conheceu há pouco tempo confiava nele.

“Eu que lavei ele, pra tirar um pouco de sujeira que ficou, do caminhão. Era mais um sem nome, com número pintado.” Pensou em como seria, pela primeira vez, não matar um animal que chegava para morrer. Era uma experiência que ainda não conhecia.

Quem era aquele porco? Quanto tempo viveria se não recebesse uma faca na garganta? José Américo conta que, sem perceber, “amoleceu” para um serviço em que o “amolecer” é “o não fazer”. E pela primeira vez, “não fez”.

“Tive vontade de saber como seria a vida de quem chega para morrer sem morrer. Não sei se foi isso mesmo ou se apenas pensei assim. Apenas não queria mais fazer. Acho que é o que faz sentido dizer.”

José Américo foi embora com o porco, na carroceria de uma caminhonete velha, com rampa improvisada. O porco subiu e observou ao redor. Já não era um número.

Ganhou nome e não terminou no prato de ninguém. “Tente imaginar qual?”, sugere. O matadouro não recebeu mais José Américo, que não se via mais matando.

Leia também “Um porco escapa do abate e volta pelos outros“, “O mau cheiro vem do porco ou da exploração do porco?“, “Por que se incomodar com a situação de um porco e ignorar tantos outros?” e “Ser chamado de porco não é ofensa“.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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