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Cinci, a vaca que se refugiou na mata para não morrer

“A maioria das pessoas ficava impressionada com a presença de Cinci, porque ela era um exemplo da vontade de viver que nós, humanos ou animais, compartilhamos” (Foto: Farm Sancutary)

Charlene Mooken, que mais tarde ficou conhecida como Cincinnati Freedom e “Cinci”, tinha seis anos quando fugiu do matadouro da Ken Meyers Meats, em Camp Washington, Cincinnati, no estado de Ohio. Mesmo pesando mais de 475 quilos, a vaca charolesa saltou uma barreira na luta pela sobrevivência e pela liberdade.

A perseguição iniciada em 15 de fevereiro de 2002 durou 11 dias, e Charlene ainda teve de escapar de armadilhas e dardos tranquilizantes, até que mais tarde encontrou abrigo na mata de um parque, onde descansou o máximo possível. A fuga só chegou ao fim com a sua captura no dia 26 de fevereiro em Clifton. À época, o clamor de tantas pessoas que já conheciam a sua história repercutiu em todo o país e fortaleceu a defesa de que Charlene tinha o direito de viver.

No entanto, o seu destino era incerto. Preocupado com a situação, o artista Peter Max ofereceu 180 mil dólares em pinturas à Sociedade Americana para a Prevenção da Crueldade aos Animais para que as obras fossem leiloadas. A condição era que a custódia de Charlene fosse repassada a ele. Assim Peter Max a nomeou como Cincinnati Freedom, considerando a luta da vaca pela liberdade.

“Apesar de ter sido um dos nossos habitantes mais esquivos, escolhendo a companhia do gado em detrimento das pessoas, Cinci recebeu inúmeros visitantes ao longo dos anos, cada um ansioso para ver a valente vaca que eles acompanharam no noticiário. Embora os visitantes do santuário não pudessem tocá-la, todos que a viam eram ‘tocados’ por Cinci, porque sua postura e olhar evocavam à intensa força vital que havia dentro dela, assim como uma consciência acurada de que ela ocupava um lugar especial no mundo”, frisa o Farm Sanctuary, sediado em Watkins Glen, Nova York, que a acolheu em 2002.

“A maioria das pessoas ficava impressionada”

“A maioria das pessoas ficava impressionada com a presença de Cinci, porque ela era um exemplo da vontade de viver que nós, humanos ou animais, compartilhamos.”

No santuário, ao longo de seis anos e oito meses, Cincinnati fez amizade com outras vacas que também fugiram do matadouro – como Queenie, Annie Dodge e Maxine. O que mais chamou a atenção no período em que Cinci esteve doente, já incapaz de mover as patas traseiras, é que as outras vacas ficavam próximas dela a maior parte do tempo, segundo o Farm Sanctuary.

Infelizmente, o câncer evoluiu muito rápido, e no dia escolhido para livrar Cincinnati Freedom do sofrimento, Kevin, um dos novilhos, aproximou-se e lambeu sua face, assim como a novilha Íris.

“Depois que a nossa linda menina partiu, todos os membros do bando se aproximaram para se despedir, cada um compartilhando com Cinci um último momento de afeição. Embora doloroso, o ritual de luto do rebanho também era bonito e reconfortante, porque não havia dúvida de que Cinci não apenas viveu, mas também morreu sabendo que ela era querida por todos”, enfatiza o Farm Sanctuary.

Cincinnati Freedom viveu no santuário de animais de 11 de abril de 2002 até o dia 29 de dezembro de 2008, quando teve de ser sacrificada em decorrência de um câncer espinhal intratável.

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David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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