Opinião

Com ou sem crise, vacas são mortas na indústria leiteira

Se o bem-estar fosse uma prioridade, essas vacas não teriam suas vidas desconsideradas tão rapidamente (Foto: Jo-Anne McArthur/We Animals)

Nos últimos anos, mas com mais intensidade desde o início da pandemia de covid-19, associações de produtores de leite, com o apoio de políticos, têm utilizado uma estratégia para tentar garantir mais subsídios e apoio para a pecuária leiteira no Brasil.

Eles alegam que sem ajuda econômica não há outra solução que não seja reduzir despesas descartando parte do rebanho. Isso significa que vacas serão mortas sob a justificativa de que não há recursos para mantê-las vivas, ou seja, alimentá-las. Normalmente há muitas reclamações sobre o custo da ração concentrada.

No entanto, é preciso entender que manter esses animais vivos não tem relação com uma real preocupação de garantia de bem-estar, mas sim de suprir uma demanda da indústria leiteira e assim gerar lucro – é isso que importa para quem cria animais com fins econômicos.

Afinal, se o bem-estar fosse uma prioridade, essas vacas não teriam suas vidas desconsideradas tão rapidamente, como se não fossem seres sencientes com anseios e necessidades sociais.

O que acontece nesse meio é um apelo a um capcioso romantismo em relação à produção leiteira, e por um motivo bem simples – um desconhecimento ou superficialização que parte do senso comum e que é reforçado por uma propaganda desconectada da realidade.

Descarte sem relação com crise

A verdade é que com ou sem crise, vacas são mortas na indústria leiteira, e na maioria dos casos não há qualquer relação com crise, mas sim com baixa produção, problemas físicos, comportamentais e hormonais, além de idade – já que a maioria das vacas utilizadas nesse sistema não ultrapassam os cinco anos, mesmo podendo chegar a 15 ou até 20 anos.

O Brasil, por exemplo, tem um período já tradicional de descarte de vacas que começa em novembro e vai até janeiro, mas em algumas regiões chegando a fevereiro e março. Ou seja, se há um período anual de descarte de vacas, como alguém pode argumentar que isso é uma triste consequência de uma crise?

Só poderia ser colocado dessa forma se esses animais não fossem abatidos, mas eventualmente eles serão e terão o mesmo destino final do gado de corte, já que às vacas leiteiras é permitido viver apenas de um quarto a um terço do que poderiam.

Então, quando as associações de produtores de leite e os políticos começam a divulgar o máximo que podem que sem apoio do governo muitas vacas serão mortas, isso é uma forma de tentar sensibilizar o consumidor, que desinformado, pode acreditar que os produtores de leite estão fazendo o máximo possível pela salvação de seus animais.

Porém, como chamar de salvador aquele que, quando não vê vantagem em manter animais vivos, os envia para o matadouro?

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

Posts Recentes

O bezerro no prato e o som de tripa de carneiro

Em “O Polonês”, seu mais recente romance publicado no Brasil, o escritor sul-africano J.M. Coetzee,…

2 semanas ago

O abate que (quase todos) ignoram

No livro “A Idade do Ferro”, de J.M. Coetzee, que se passa durante os últimos…

3 semanas ago

Uma reflexão sobre a violência por trás do leite

No filme belga “O Jovem Ahmed”, dos irmãos Dardenne, Ahmed (Idir Ben Addi), após cometer…

4 semanas ago

Por que ser cruel com os animais?

Quando se aceita que não há crueldade no que se faz contra os animais, como…

1 mês ago

Ser vegano “é coisa de mulher”?

Ser vegano “é coisa de mulher”? Autoras como Carol J. Adams trazem contribuições para pensarmos…

2 meses ago

Uma crítica ao “veganismo de mercado” a partir do pensamento de Habermas

Estudado em escolas de comunicação social do mundo todo e falecido recentemente, o filósofo e…

3 meses ago