Pequenas Narrativas

Comendo peixe assistindo peixe no aquário

Ilustração: Diana Marques

Espetou o peixe grelhado sem cabeça e sem rabo no prato. Cortou um pedaço e levou à boca. Enquanto mastigava observou um tetra neon e um mato grosso no aquário. Parados em sua direção deram impressão que o assistiam tanto quanto ele os assistia.

“Comendo peixe assistindo peixe”, comentou. “É uma experiência nova.” Teve curiosidade em saber se os habitantes do aquário entendiam a situação. “Sei que não. E se entendessem, o que será que achariam?” Concluiu que eram sortudos, mas mudou de ideia.

“Não sei, porque este aqui veio do rio, foi o que garantiu o garçom, então pelo menos viveu um pouquinho na natureza, e vocês não sabem o que é a natureza. Será que existe prazer em estar aí? Nesse ambiente artificial.”

Deve ser esquisito saber nadar tão bem e nunca poder ir além. “Só que é o único mundo que vocês conhecem, certo? Mas se conhecemos outro, parece estranho deixá-los aí, mesmo que sejam criaturas domesticadas.” Levantou, ficou rente ao aquário e deu dois passos.

Aquele era o mundo deles. Mais adiante, outra divisão, outros peixes. Sentou outra vez e percebeu que continuavam na mesma posição, com a boca quase encostada no vidro.

Gostou dos olhos, vibrantes. No prato, não havia olhos – nem os rabos que cintilavam com a incidência da amarelada luz artificial. “Será que este aqui teria desejado viver em um aquário?”, monologou, ignorando o olhar de um casal da mesa ao lado.

“Pelo menos nunca terão a boca furada com anzol”, disse sorrindo. Tentou imaginar quantos peixes de aquário morrem asfixiados por dia no mundo para comparar com aqueles servidos à mesa.

Sabia que a diferença era aberrante, mas já não tinha certeza sobre o que era melhor ou pior. Deixou metade do peixe no prato e pediu a conta. Pagou e continuou ali assistindo o tetra neon e o mato grosso. Quando quase encostou a cabeça no vidro, o garçom voltou: “Eles estão dormindo. Já estavam antes do senhor chegar.”

Gosta do trabalho da Vegazeta? Colabore realizando uma doação de qualquer valor clicando no botão abaixo: 

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

Posts Recentes

O bezerro no prato e o som de tripa de carneiro

Em “O Polonês”, seu mais recente romance publicado no Brasil, o escritor sul-africano J.M. Coetzee,…

3 dias ago

O abate que (quase todos) ignoram

No livro “A Idade do Ferro”, de J.M. Coetzee, que se passa durante os últimos…

1 semana ago

Uma reflexão sobre a violência por trás do leite

No filme belga “O Jovem Ahmed”, dos irmãos Dardenne, Ahmed (Idir Ben Addi), após cometer…

2 semanas ago

Por que ser cruel com os animais?

Quando se aceita que não há crueldade no que se faz contra os animais, como…

3 semanas ago

Ser vegano “é coisa de mulher”?

Ser vegano “é coisa de mulher”? Autoras como Carol J. Adams trazem contribuições para pensarmos…

1 mês ago

Uma crítica ao “veganismo de mercado” a partir do pensamento de Habermas

Estudado em escolas de comunicação social do mundo todo e falecido recentemente, o filósofo e…

2 meses ago