“Olhe aí, uma criatura decapitada. Acho que esses dias aí não imaginava que estaria aqui agora ó” (Fotos: Andrew Skowron/iStock)

Frango assado na mesa. É bicho e não é. Acha estranho. Pele tostada, sem cabeça. “Parece que tá encolhido.” Quer saber a idade. Quem responde? Ninguém. Começa a analisar o frango. “Cadê a cabeça?”

“Já vem assim”, diz o primo. “Por quê?” “Sei lá, pra não olhar pra gente, será?” Alguém tira uma coxa. Outro abre o peito. Vê farofa, mexe e remexe. “Pra onde vai o coração e os outros órgãos?” “Eles tiram, só vem assim. O resto é vendido separado, é o padrão”, responde outro primo.

“Por quê?” “Deve ser pra não parecer bizarro.” “Hum…” “Ou pra ganhar um dinheiro separado, né? Mas daí junta os miúdos de um com os miúdos de outro, e de outro e de outro, vai virando aquela mistura de órgãos de uma porrada de bicho morto. É uma carnificina medonha.”

“Isso é bem esquisito.” Mas quem fica pensando nisso?” “É…” “Comer bicho é estranho, porque é comer bicho como se não comesse bicho.” “É…” “Todo mundo vai nessa, ou quase todo mundo.”

“Olhe aí. Tá morto, mas ninguém acha que tá morto, não porque não morreu, mas porque tem aquela ideia mais sinistra de morte, não é não? Um bicho morto pra comer é como se não tivesse morrido nem existido.” “Mas isso aqui é morto também. Morto mesmo. Olhe aí, uma criatura decapitada. Acho que esses dias aí não imaginava que estaria aqui agora ó.”

“É, acho que não, mas pode ter sentido a morte, né? Não isso aqui, uma mesa, gente em volta, você no centro, sem vida, e o pessoal em volta comendo sua carcaça como se tu nem tivesse nascido. Aí pensa: ‘Tu é o que, afinal?’”

“Nada, nada, essa coisa aí que tão mastigando. Pensa, tão comendo teu peito, imagine, o coração lá dentro, que, sei lá, de alguma forma protegia seu coração. É o que eu acho.” “Deve ser braba a degola. Tu de ponta-cabeça ali, o sangue vai, ninguém liga, é só coisa do dia, da rotina. Se sofrer, sofreu, e sofre mesmo, morreu e já era, vai pra sacolinha, pra bandeja, o que for.”

Outros continuam comendo. Gula é um tampão de ouvido. Paladar dá uma hipnotizada, né? Foco na mastigação e vai. Chega a ter uma harmonia, a carne do bicho morto entrando e descendo. Não uma boa harmonia, mas uma harmonia, sabe? Esquisita e por aí. Imagine se fosse você aí.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

Posts Recentes

O bezerro no prato e o som de tripa de carneiro

Em “O Polonês”, seu mais recente romance publicado no Brasil, o escritor sul-africano J.M. Coetzee,…

2 semanas ago

O abate que (quase todos) ignoram

No livro “A Idade do Ferro”, de J.M. Coetzee, que se passa durante os últimos…

3 semanas ago

Uma reflexão sobre a violência por trás do leite

No filme belga “O Jovem Ahmed”, dos irmãos Dardenne, Ahmed (Idir Ben Addi), após cometer…

4 semanas ago

Por que ser cruel com os animais?

Quando se aceita que não há crueldade no que se faz contra os animais, como…

1 mês ago

Ser vegano “é coisa de mulher”?

Ser vegano “é coisa de mulher”? Autoras como Carol J. Adams trazem contribuições para pensarmos…

2 meses ago

Uma crítica ao “veganismo de mercado” a partir do pensamento de Habermas

Estudado em escolas de comunicação social do mundo todo e falecido recentemente, o filósofo e…

3 meses ago