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E se fosse você no lugar de um animal morto para consumo?

Como um ser racional e dotado de um pouco de sensibilidade inerente aos humanos, não encaro isso como uma escolha (Fotos: Moving Animals)

Sei que para algumas ou muitas pessoas, mesmo reconhecendo a dura realidade dos animais criados para consumo, pode não parecer tão fácil abdicar do consumo de todos os alimentos e produtos de origem animal.

Afinal, é preciso, de fato, uma força de vontade um pouco mais do que significativa. É preciso se predispor sem ressalvas; enfim, considerar as implicações desse consumo e abraçar de forma conscienciosa e sem preconceitos a reeducação alimentar motivada por preceitos morais.

Se digo, por exemplo, que não consigo abandonar o consumo de algum alimento de origem animal em específico, talvez seja um bom exercício eu imaginar-me no lugar do animal que, contra a sua própria vontade, ou no mínimo à revelia de sua vontade, deu origem a um produto que não existiria sem subjugação. Se não for o suficiente, também há farto material disponível sobre tal realidade.

Creio que seja válido absorver o máximo possível de informações que me ajudem a entender em profundidade o que isso representa. Se fico sabendo do sofrimento envolvido na origem de um produto específico, reflito a respeito, sem evasivas – sem a típica consciência fatalista. Esse ato é transformador – é como dinamite para a mente.

O que é o meu paladar?

Não estou dizendo que para qualquer um é muito simples abdicar de um costume enraizado por fatores históricos e culturais. Mas preciso ser honesto, o que é o meu paladar, o prazer da gustação, a memória gustativa, quando assimilo tudo que envolve o consumo de um determinado produto que não existiria sem privação, violência e/ou morte? Será que é um caminho realmente satisfatório?

Acredito que o interesse pela informação e por realidades muito diversas das nossas é fundamental no mundo em que vivemos, porque é isso que nos coloca em situação de enxergar para além de nós mesmos, para muito além daquilo que qualificamos como nossas necessidades.

Até porque, se são nossas necessidades, isso significa que há uma atribuição de imprescindibilidade, certo? Mas se essas necessidades podem ser substituídas, sem prejuízo à nossa qualidade de vida, logo não são de fato necessárias – nós que as valoramos por uma questão cultural, de costume, de sabores.

Devemos comer sorrindo o que um animal morreu “produzindo”?

Sou da opinião de que o apego ao consumo de alimentos de origem animal vem sempre embutido de um histórico cumulativo e ancestral de condicionamento, aceitação e legitimação. Afinal, isso não começou com as gerações que habitam o mundo na atualidade. Porém, considero a seguinte reflexão:

Devemos comer sorrindo o que um animal morreu “produzindo”? Se tenho conhecimento dessa realidade, prefiro não fechar os olhos. Eu não comeria, porque, partindo da minha percepção moral, admito que eu estaria falseando a minha própria realidade a partir de uma simulação de necessidade – e confortavelmente dissimularia as consequências de minhas ações.

Como um ser racional e dotado de um pouco de sensibilidade, não encaro isso como uma escolha – mas como consequente opção de uma imposição, mesmo que nos esforcemos para validar o oposto.

David Arioch

Jornalista e especialista em jornalismo cultural, histórico e literário (MTB: 10612/PR)

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