Quando se fala em impacto ambiental é muito comum a associação principalmente com o as implicações em terra firme – envolvendo desmatamento, poluição resultante da industrialização, entre outros fatores já bem conhecidos, ainda que 70% do planeta seja coberto por água.
No entanto, o que parece acontecer ainda mais distante dos nossos olhos, normalmente não ganha a devida atenção ou nem mesmo qualquer atenção por parte da maioria – e esta é a realidade dos mares e oceanos que recebem mais de 90% da energia armazenada pelos gases do efeito estufa – como já apontado pela ONU.
Ainda que os oceanos tenham condições de absorver até 93% do gás carbônico do planeta, tal capacidade é comprometida por inúmeras atividades humanas – e uma das que merece destaque é a pesca comercial que culmina por ano em captura e abate de 790 bilhões a 2,3 trilhões de peixes, conforme levantamento do site britânico Fish Count.
Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), a pesca comercial tem reduzido a abundância de espécies de peixes, comprometido o potencial de desova e os parâmetros populacionais – incluindo crescimento e maturação.
A capacidade reprodutiva dos peixes também tem sido afetada pela prática, assim como processos ecológicos em larga escala. O impacto geral da atividade é comparado desde a década de 1990 ao da agropecuária.
Pesquisadores como Villy Christensen e D. Pauly, da Universidade da Columbia Britânica, no Canadá, apontaram há décadas que a pesca excessiva pode transformar um ecossistema estável em um ecossistema bastante ineficaz.
Isto porque ao interferir na abundância de espécies e na predação natural, a pesca modifica profundamente a cadeia trófica e os fluxos de biomassa e energia do ecossistema; e pode ainda modificar e destruir a topografia dos habitats.
Ao alterar esse cenário, há também o comprometimento das florestas marinhas, que são responsáveis pela absorção de grandes quantidades de carbono, contribuindo no combate às mudanças climáticas.
Afinal, estima-se que as algas marinhas benéficas são responsáveis pela absorção de até 20 vezes mais carbono do que as florestas terrestres, de acordo com a organização norte-americana Oceana. Por esse motivo, o condado de Sussex, na Inglaterra, decidiu banir no início de 2020 a pesca por uma área de 304 quilômetros de sua costa.
A pesca comercial global, assim como a acidificação dos oceanos em decorrência das mudanças climáticas, tem contribuído com a extinção de mais de um terço dos mamíferos marinhos, conforme relatório da Plataforma Intergovernamental de Políticas Ciências em Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IBPES).
O impacto não está apenas em mares e oceanos, onde o atum e o “bacalhau original” (gadhus morua) são considerados espécies em extinção. Prova disso é uma estimativa da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN em inglês) que aponta que as ações humanas, incluindo a pesca, culminaram no declínio de 83% das populações de água doce entre os anos de 1970 e 2014.
A pesca comercial também é cruel com os golfinhos. Apenas em um período de quatro meses de 2019 o Observatório Pelagis levantou que 1,2 mil golfinhos foram mortos como efeito colateral da pesca na França. Vale lembrar que a atividade é apontada como responsável pelo Comitê Científico da Comissão Baleeira Internacional (IWC) de aproximar o golfinho de Mauí da extinção. Enquanto em 1971 havia pelo menos dois mil indivíduos da espécie, hoje o total é de 57 golfinhos.
Outro problema é a a pesca fantasma, que só no Brasil atinge 70% dos mares, conforme estimativa da organização World Animal Protection (WAP). O termo diz respeito aos equipamentos descartados ou perdidos nos mares, que somam pelo menos meia tonelada por dia, afetando 69 mil animais marinhos – que podem se ferir e morrer. Por ano, o resultado é ainda mais preocupante porque representa o declínio populacional de 5% a 30% de algumas espécies marinhas.
Além disso, para quem se preocupa com o bem-estar dos peixes, “Glass Walls” ou Paredes de Vidro”, um documentário lançado em 2009 e narrado por Paul McCartney mostra como os peixes sofrem em consequência da descompressão, sufocamento e esmagamento em decorrência da atividade.
“Nesse tipo de pesca, geralmente pega-se ‘acidentalmente’ golfinhos, baleias, tartarugas e outros animais indesejados por parte da indústria. São todos rotineiramente fisgados por anzóis e emaranhados em redes. [Quando indesejados] seus corpos são jogados de volta ao oceano”, acrescenta McCartney, ponderando que alguns cientistas ambientais acreditam que nesse ritmo os oceanos estarão vazios até o ano de 2048.
Em “Glass Walls”, a aquacultura e as criações industriais subaquáticas também são qualificadas como extremamente abusivas, já que não é tão incomum os peixes terem de nadar entre seus próprios dejetos em tanques congestionados e até contaminados.
“As doenças prosperam. As condições em algumas fazendas são tão horríveis que 40% dos peixes morrem antes mesmo dos criadores matá-los e empacotá-los como comida”, critica Paul McCartney.
Outro fator a se considerar é que, segundo o documentário, o consumo de peixes é a causa número um de intoxicação alimentar, e o único meio realmente significativo dos seres humanos estarem expostos à intoxicação por mercúrio, o que, dependendo da quantidade, pode causar problemas neurológicos.
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