Categorias: Contos e Crônicas

Como desaparecem os novilhos

Foto: Pixabay

Ficou admirado com um novilho que descansava à sombra de uma sete-copas. As folhas caíam e ele tremelicava quando deitavam no pelo. “Deve ser por causa das pontinhas”, comentou. “Que sensibilidade!”

Com a boa aragem, o bovino elevou bem a cabeça. Moveu-se de um lado para o outro e mugiu com excitação. “Como é fresca! Sinto como se cortasse o calor. Você também, não é?”

O novilho levantou e correu até desaparecer. “Que liberdade! Como emana satisfação com tanta simplicidade, em ser quem é e viver como pode viver. Deve ser maravilhosa essa tranquilidade, ausência de preocupação. Gostaria eu de ser você.”

Enquanto tentava encontrá-lo, o novilho retornou e correu em direção oposta. De súbito, parou e começou a mastigar capim. “A comida está ao seu alcance o tempo todo. Que felicidade! Ó, meu amigo, que tal se trocarmos de lugar? O que acha, hein?”

Mas o novilho estava distante, nem o ouvia, e ele não queria perturbar seu remanso. “Você é feliz, meu amigo! É sim! Como não ser? Quem pode refutar? Seus olhos vão daqui pra lá e nada do que vê pode lhe assustar. Estou certo, não estou? Que mal pode haver numa vida tão simples e bela?”

Fez outras visitas e começou a chamar o novilho de “criatura abençoada pela boa vida”. “A melhor vida! Olhe como brinca, que estamina! E quem perturba seu sossego? Acredito que ninguém. Que tal você ir para cidade e eu ficar no seu lugar, hein?”

De longe, o novilho balançava as orelhas e esfregava-se numa porção de capim. “Isso é viver! É sim, senhor!” Algum tempo depois, retornou e não o encontrou. “Cadê o novilho brincalhão que ficava aqui?” “Não sobrou nenhum por agora. Vai chegar mais por esses dias.” “Mas e aquele bem animado?” Não sei de quem o senhor fala.” “Tudo bem. Obrigado.”

Voltando para casa, encontrou um caminhão de um matadouro e viu o novilho. “É ele! É ele sim! Que diabos!” Começou a buzinar e a berrar. “Pare esse caminhão! Pare esse caminhão agora! Sou da inspeção! Por Deus que sou da inspeção!” Com a insistência, o motorista parou no acostamento.

Quando desceu, a carroceria foi aberta e não havia ninguém.

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David Arioch

Jornalista e especialista em jornalismo cultural, histórico e literário (MTB: 10612/PR)

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