Como o medo de um animal pode ser do agrado de outro? Não sou capaz de enumerar quantas vezes vi um animal subjugado com medo. Mas posso pensar no maior número possível de vezes em que vi expressões transformadas, de um estado de apreensão para um estado de medo e terror.
Olhos intumescidos, boca bem aberta, músculos rijos, orelhas menos arqueadas, e os membros curtos tentando desvencilharem-se dos membros mais longos que não são seus e o retém. Sempre me chamou a atenção a boca aberta.
Abri-la é manifestar algo que será ignorado, emitir sons que serão abafados, não por interferência, e sim pela indiferença; que terão uma estridência interpretada como um vazio, um nada, que vibra até desaparecer.
O animal continua “barulhando”, mas o seu “eu sonoro” é o “eu que não sou”, e assim ele é apenas representação do desejo humano – que é contestação vencida antes de manifestá-la por sua corpórea condição.
Posso ver a vontade de não estar ali, de querer não ser submetido, suplantado pelo que não é sobre ele, e sim sobre o outro, que projeta e impõe uma multiplicidade de violências. “E quem vê a violência?”
Devo ignorar as ideias que norteiam esse medo e todas as emoções que surgem também com a condição não humana? O ato de vê-lo sem vê-lo, de percebê-lo sem percebê-lo, de manter a percepção numa medida que não ultrapasse a não instrumentalização, a não reificação, a não produtificação.
O animal que vejo, e que não é único, afunda-se numa lama que não é sua, que não é única nem limita-se à literalidade. Tratam seu corpo como uma casca, que deve ser violada – de uma forma, de outra, até sumir dentro de outros corpos.
Olhos, bocas, orelhas, pés, em quantos corpos manifestam medo agora? A língua encosta na parte superior, e imagino que raleia como se, alta, pudesse tornar mais traduzível o terror e a agonia.
Vibra de novo, e a estridência aumenta, e com ela o abafamento, que é o abafamento da vida impercebida, da “casca” que perdeu todos os movimentos.
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