Categorias: Opinião

Sobre dominar animais e matá-los

Foto: Unparalleled Suffering

“Uma morte pacífica para um animal pacífico”, ouvi uma vez. Não era sobre um animal morrer distante da ação humana, mas pela ação humana.

Alguém olhou o animal de perto e disse que trazia “expressão serena” e que “provavelmente nada sofreu”. A “expressão serena” era uma percepção particular e além, do condicionamento e do agrado.

Quem mais enxergou a “expressão serena”? A afirmação foi baseada no que chamaram de “habilidade”, palavra que ouvi três ou quatro vezes em sequência.

Notei que a “habilidade” não era tão importante para eles, mas que pudéssemos crer que houve um processo de morte concretizado pela “habilidade”, e que deveríamos focar-nos mais na “ideia de habilidade”. A ideia deveria prevalecer mais do que a ação.

Então apontaram para alguém que diziam que “fazia morrer sem sofrer”, que abatia animais em datas comemorativas, festividades. Sua “habilidade”, reconheci, era citada também como vocábulo de perpetuidade.

“Onde há um ‘habilidoso’, não há nada além de sua própria ‘habilidade’?” “Quantas ações podem ser justificadas pela ‘habilidade’? A ‘habilidade’ esvazia a arbitrariedade?” – e continuei refletindo.

Percebi que o animal e a consumação de sua morte tornaram-se elemento menor por trás da “habilidade”, onde esconderam o animal.

Imaginei as cinco sílabas caindo no chão e juntando-se, maior que o animal, e cobrindo-o, ao mesmo tempo em que seu corpo sem vida era pressionado contra o chão.

Ele desaparecia, surgia outra vez e era dominado, já sem sentir a dominação, e para ser descarnado. Fiquei pensando em como entre o imaterial e o material estranhos trânsitos também são estabelecidos, por conveniências e outras coisas. A constatação varia com a disposição?

Horas depois, ainda falavam da “habilidade”, e não vi mais o corpo do animal, que sumiu antes da palavra.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

Posts Recentes

O bezerro no prato e o som de tripa de carneiro

Em “O Polonês”, seu mais recente romance publicado no Brasil, o escritor sul-africano J.M. Coetzee,…

3 dias ago

O abate que (quase todos) ignoram

No livro “A Idade do Ferro”, de J.M. Coetzee, que se passa durante os últimos…

1 semana ago

Uma reflexão sobre a violência por trás do leite

No filme belga “O Jovem Ahmed”, dos irmãos Dardenne, Ahmed (Idir Ben Addi), após cometer…

2 semanas ago

Por que ser cruel com os animais?

Quando se aceita que não há crueldade no que se faz contra os animais, como…

3 semanas ago

Ser vegano “é coisa de mulher”?

Ser vegano “é coisa de mulher”? Autoras como Carol J. Adams trazem contribuições para pensarmos…

1 mês ago

Uma crítica ao “veganismo de mercado” a partir do pensamento de Habermas

Estudado em escolas de comunicação social do mundo todo e falecido recentemente, o filósofo e…

2 meses ago