Categorias: Opinião

Confinar um animal não é submetê-lo à prisão?

Se um animal é mantido preso, mas o que determina isso não é sua segurança, uma premissa real de bem-estar, e sim uma condição de lucro/consumo, não há um endosso do exercício de dominância?

Sem dúvida, o seu destino resultante da imposição humana é a obliteração. E não é a preocupação em garanti-la que o torna vítima dessa violência tão irrefletida? Afinal, quantas pessoas olham para animais em estado de privação de circulação, ocupando espaços incompatíveis com seus viveres e interpretam isso como arbitrariedade, violação de direitos?

Mas alguém pode alegar que não há violação de direitos para quem não pode reclamar por eles. E então encontramo-nos no mesmo conflito consentâneo a qualquer criatura em situação de privação de direito, não limitando-se somente ao animal que qualquer um possa reconhecer como vítima da situação que exemplifico.

Devemos então atribuir direito somente a quem pode reivindicá-los? Crer nisso não é evocar a manutenção do supremacismo? Não é defender que a vulnerabilidade deve ser explorada preterindo a contestabilidade?

Um animal criado para consumo e confinado é sempre um animal aprisionado, mas as construções artificiosas de naturalização de sua condição impedem a leitura do “confinar” como “aprisionar”, ainda que seja tão lógico. Nem mesmo gaiolas são vistas como “espaços de supressão”, de “desanimalização”, da “gradação do não ser”. E, independente desses espaços, não são criaturas aprisionadas aos interesses humanos?

Não reivindico com essa reflexão apenas uma percepção sobre a prisão, que ganha termos suavizantes, e sim sobre o sujeito aprisionado, porque essas prisões existem pelas (ir)razões em que nos constituímos como sujeitos de consumo.

Reivindicar o trânsito desse animal aprisionado para outro espaço que não alterará sua exploração e fim pode agradar a consciência humana sem transformar a realidade do animal. E se não a transforma, a que interesse isso serve? Ao nosso ou ao das vítimas animais? E em que parte desse processo pode-se assegurar a superação da consciência supremacista humana?

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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