Categorias: Opinião

Qual é a reação ao encontrar frangos ensanguentados na rua?

Foto: Unparalleled Suffering

Qual é a reação ao encontrar frangos ensanguentados jogados na rua? De repente, perto de garrafas e latas vazias, ou outros tipos de descartes que nunca tiveram vida e senciência.

Refiro-me a animais descartados, com sangue nas penas, e as cabeças não separadas dos corpos porque não serão comidos. Os pés sem vida fixos no chão ou virados para cima.

É adequado dizer que o corpo evoca uma realidade torcida sobre uma vida torcida? Abaixo do corpo um chão de transitar, não de sepultar. E fica ali até não ficar, e quem pode dizer pra onde irá?

Um frango ensanguentado é diferente do embalado para consumo? Como as pessoas reagiriam se estivesse, sem as interações sanitizantes, conservantes e especiosas, exposto para aquisição?

E sem a comum remoção de cabeça, podendo ser movida de um lado para o outro, sem vida, com um sangue espesso, entre o molhado e o ressecado – como tinta de morte. E duvidável seria que observariam seus olhos como observam os dos peixes congelados?

Alguém pode ter dificuldade em atentar-se à expressão, e expressão no singular pode significar pouco se redutor da realidade representada, como já é do comum.

“Absurdo é encontrar um animal nessa condição. Nunca vi e não conheço quem tenha visto”, podem dizer. Mais uma vez, não preocupo-me com o próprio testemunhar, com a ideia da exceção, e sim com a representação associativa.

O animal no chão, com suas penas úmidas e o sangue, ainda que rareado, próximo de seu corpo fragilizado, são elementos de sinceridade sobre a violação e espoliação de sua condição corpórea.

Se transferimos esse “corpo pensado” do chão para uma plataforma industrial, quantas pessoas compartilhariam o mesmo lamento em relação à condição do animal no chão? Não há nisso uma questão de predominância aceitativa contextual? O incômodo não viria do efeito estético?

E se aquele animal não estivesse no chão, mas “limpo”, eufemismo que também significa “processado-dissociado”, sem vestígios de sangue, sem cabeça, sem pés e pronto para ser preparado para o almoço? Quem se preocuparia e refletiria sobre as inerentes precedências?

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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