Sempre que você mostrar alguma denúncia de crueldade contra animais, alguém dirá que não é necessário se preocupar porque isso é exceção. Porém, acho importante não desconsiderar que muitas das desgraças que a humanidade viveu no passado e ainda vive no presente foram endossadas pela aceitação da exceção.
A partir do momento que normalizamos qualquer ação que prejudique outras vidas, logo não deveria ser naturalizada, estamos dando o nosso aval para que essa prática não seja abolida.
Não é raro alguém usar o argumento de que o “problema da crueldade” pode ser resolvido com boa fiscalização. Bom, falando do Brasil, vivemos em um país com 213 milhões de pessoas, com graves problemas de corrupção, desigualdades e outros tipos de injustiças, e que mata 191 animais por segundo. Estou citando apenas criaturas terrestres criadas para consumo. Tem certeza que quer falar sobre fiscalização?
Não é preciso recorrer a nenhuma organização para concluirmos que é impossível evitar que animais sofram ou passem por algum tipo de privação. Até porque são criaturas que, assim como nós, não desejam sofrer e morrer, independente de tratamento e circunstância.
Normalmente a construção conceitual da exceção no nosso ideário é apenas uma forma de nos eximirmos de culpa, e seguirmos nossas vidas como se estivéssemos dando o nosso melhor. Mas a realidade é que não fazemos isso, apenas nutrimos tal ilusão; perpetuamos uma relação de conveniência que se arrasta por séculos.
Se as possibilidades para uma vida mais justa em relação aos outros surgem a cada ano, com um número cada vez mais crescente de alternativas, por que não devemos abraçá-las, nos esforçarmos para não impactarmos tanto na vida de outras criaturas?
Não é difícil fazer isso quando há genuína boa vontade. Se a você isso parece difícil, acredite, talvez o seu esforço não seja genuíno. Claro que viver como sempre vivemos nos parece sempre mais sedutor e confortável. Afinal, as pessoas não gostam tanto de mudanças quanto dizem gostar, e principalmente se isso faz com que questionem o seu estilo de vida, a sua concepção de mundo e de valores.
A simples verdade que muitos rejeitam é que não somos tão bons quanto nos julgamos na nossa relação com vidas não humanas, e isso é uma consequência natural da nossa displicência.
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