Opinião

Criança atacada por golfinho: animal não é entretenimento

Golfinho usado como entretenimento no Resort World Sentosa, em Singapura (Foto: WAP)

Na semana passada, uma garotinha de dez anos foi atacada por dois golfinhos no parque aquático Dolphin Discovery, de Cancún, no México. Como consequência, a menina ganhou marcas de mordidas, hematomas e alguns cortes. E o que isso nos ensina? Basicamente que animal não é entretenimento e isso também é irresponsabilidade parental.

Então alguém pode alegar que os parques promovem atividades como “nade com os golfinhos” destacando que se trata de um ambiente “seguro e familiar”. Bom, claro que parques promovem positivamente essa imagem, considerando que essas atividades trazem retorno financeiro.

No entanto, o que muita gente ignora é que golfinhos são animais marinhos que necessitam de liberdade e muito espaço para expressar sua inerência biológica, e uma vida em cativeiro, ainda que o animal tenha nascido em confinamento, não altera tal fato.

Um relatório publicado este ano pela organização World Animal Protection destaca que na natureza golfinhos nadam de 50 a 225 km por dia, e mergulham centenas de metros de profundidade, o que é impossível em parques e aquários, e como consequência isso afeta a saúde dos animais – além de favorecer estresse extremo, comportamentos neuróticos e níveis anormais de agressividade.

Cientes dessas consequências, há treinadores de golfinhos que não entram na água sem cilindros de emergência que possam garantir pelo menos cinco minutos de oxigenação – caso os golfinhos os ataquem.

“É no mínimo contraditório que treinadores corram o risco de serem arrastados para debaixo d’água pelos animais, dada a atmosfera ‘segura e familiar’ que delfinários se esforçam para retratar”, critica a WAP.

E acrescenta: “Os turistas, especialmente os que amam animais, acabam aderindo a esse tipo de atração com boas intenções, sem perceber que estão sustentando empresas que lucram com tamanho risco e crueldade.”

Em junho, o Canadá aprovou na Câmara dos Comuns, o Projeto de Lei S-203, que proíbe que golfinhos e baleias sejam mantidos em cativeiro com fins de entretenimento. O projeto foi endossado por uma coalização de mais de 20 cientistas marinhos e organizações que atuam em defesa dos animais.

Também foi este ano que o parque aquático Dolphinaris Arizona, em Scottsdale (AZ), nos Estados Unidos, informou por meio de um comunicado assinado pelo diretor de marketing da OdySea, Ran Kniskinsky, que decidiram investir em entretenimento sem animais. A decisão veio depois que o golfinho Kai faleceu em fevereiro e o Dolphinaris decidiu fechar temporariamente suas portas.

Kai foi o quarto golfinho a morrer desde a inauguração do parque aquático em 2016. Nesse período, quatro golfinhos ainda viviam no Dolphinaris, mas foram enviados para um santuário de animais marinhos nas Ilhas Virgens.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

Posts Recentes

Uma crítica ao “veganismo de mercado” a partir do pensamento de Habermas

Estudado em escolas de comunicação social do mundo todo e falecido recentemente, o filósofo e…

4 semanas ago

Foi o fator econômico que acabou com a escravidão e levará à libertação animal?

Foi o fator econômico que acabou com a escravidão e levará à libertação animal? Há…

1 mês ago

O que comemoramos quando mais animais são mortos e consumidos?

O que comemoramos quando mais animais são mortos e consumidos? Em 2024, o Brasil bateu…

1 mês ago

O consumo humano transforma animais em prisioneiros de seus próprios corpos

A prisão é o corpo: além do matadouro O consumo humano transforma animais em prisioneiros…

2 meses ago

Animais, pela ética do amor ou do cuidado?

Amor ou justiça: por que a ética do cuidado é mais eficaz A premissa de…

2 meses ago

Por que não é uma boa ideia usar o termo “feito de plantas”

Pode parecer coerente usar o termo “feito de plantas” em relação a alimentos ou pratos…

2 meses ago