Ontem, vi pessoas contemplando alguns animais em um presépio. Na representação do nascimento de Jesus, crianças e adultos admiravam a presença desses animais.
Observando tal cena, logo me lembrei de uma passagem publicada nos “Cadernos de Fé e Cultura” da revista Magis, que diz que “Jesus não nasceu em palácios, nem em lugares luxuosos, mas sim no meio dos animais”.
A referência aos animais são um boi, um burro, ovelhas e um galináceo. Trazendo para a realidade comum, esses animais são mortos quando determinado pela conveniência humana. Mas nesse cenário em especial, eles são pensados por quem os observa como intocáveis, porque estão próximos de Jesus.
Mas se Jesus que surge para a vida onde estão os animais, no espaço dos animais, não há algo mais a se considerar? Muitas pessoas reconhecem nisso uma harmonia com outros animais, uma não separação nem um distanciamento tão normalizado em relação à relativizada atribuição de valor à vida.
Porém, se essas mesmas pessoas que admiram o presépio atribuem valor a esses animais, pelo que é sobre a vida deles, não o que deve ser tirado deles, por que não refletir sobre isso fora desse contexto?
Sem dúvida, a comum contemplação do presépio evoca o paradoxo do excepcional, porque a consideração por cada indivíduo não humano nesse espaço não é levada para fora desse espaço. Mas deveria ser assim?
Qual é o sentido de contemplar animais em uma data específica, em um cenário específico, se o comum da vivência reflete exatamente o que é a privação de vida desses animais e a subjugação deles para consumo e outros fins?
Meu objetivo não é levantar uma discussão sobre o sentido religioso do presépio e sim evocar uma reflexão sobre a desconexão entre a contemplação do que também é vida animal não humana em relação ao que fora desse cenário é comumente instrumentalização e exploração.
É coerente admirar animais em situações específicas, quando fora dessas situações o que é feito é empurrá-los para uma realidade de exploração e morte? O que predomina não é uma relação desarmônica e arbitrária?
Leia também “Segundo documentário, Jesus era contra a matança e consumo de animais“, “Sobre a crueldade de comer cordeiro no Natal” e “Comercial de Natal romantiza a matança de animais“.
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As pessoas são estranhas. Vivem em movimento de manada, como se fosse normal o bizarro. Nada faz muito sentido no contexto alimentar da vida das pessoas, nem mesmo o que elas dizem amar (a Jesus) está ligada realmente as suas ações. Me agarro na esperança do dia da queda das grandes corporações agropecuárias, pois esperar uma mudança de pensamento e ação individual é como querer respirar debaixo dagua.