No matadouro, vejo as costas de um porco de menos de seis meses em direção a um box de choque elétrico que precede a degola. Chamam de insensibilização o que vem da insensibilidade.
Não digo que ele caminha, mas que é caminhado, porque é forçado. Pelos roçam nas grades. Concreto dos lados e ferro por cima. Estreito. Poucos centímetros além do corpo.
Algumas partes pintadas de preto e outras descascadas. É pra passar sem folga. Se fica assustado, prende-se dos lados. Abertura em cima também é pra agredir. Como fugir? Animal atrás e animal na frente. Um não deve ver a agitação do outro.
O corpo parece preso a uma caixa de concreto e a ordem é única – adiante. Não vejo feição nem cabeça, só costas. Quantas costas humanas estão viradas para ele? O sentido das costas suínas não é o mesmo das costas humanas.
Mas o segundo condiciona o primeiro. Costas de porco e costas de gente. Penso no poder das costas, no domínio das costas, de virá-las para esses animais e mantê-las assim. Costas que não reconhecem costas.
Quantas costas? Ele de costas sem querer e gente de costas pelo querer. Talvez um dia as costas pesem e as pessoas mudem de posição, ou não.
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