O desmatamento no Cerrado aumentou 25,3% no último ano do mandato de Jair Bolsonaro, segundo dados do Inpe divulgados este mês. Foram derrubados 10.688,73 km² de vegetação nativa, quase um Qatar. É a maior área devastada em seis anos no bioma.
O Maranhão concentrou a maior parte da devastação, com 2.833,92 km², seguido por Tocantins (2.127,52 km²), Bahia (1.427,86 km²) e Piauí (1.188,78 km²), região de expansão do agronegócio conhecida como Matopiba.
Os quatro Estados representam 71% do desmatamento no bioma. O aumento em relação ao ano anterior foi de 104% no Piauí e de 54% na Bahia. Maranhão e Tocantins registraram alta de 24%.
Dos 13 Estados do bioma, só houve queda do desmate em Rondônia e Mato Grosso. A contribuição dos dois, porém, é muito pequena: 0,12% e 6,94%, respectivamente, do total desmatado.
O governo Bolsonaro registrou uma taxa média anual de desmatamento de 8.361 km² no Cerrado. O número representa um virtual empate com a média dos quatro anos anteriores, período dos governos Dilma e Temer (8.250 km² por ano de 2015 a 2018).
No entanto, assim como ocorreu na Amazônia, o governo atual foi o único a registrar três aumentos seguidos da taxa num mesmo mandato desde o início das medições, que no caso da savana brasileira começaram em 2001. A taxa é medida de agosto de um ano a julho do ano seguinte.
No último dia 6, a União Europeia aprovou uma legislação contra o desmatamento importado que deixou a maior parte do Cerrado de fora. Com a nova lei, 74% do Cerrado brasileiro, o bioma que mais produz commodities para o mercado europeu no mundo, permanecerá desprotegido e sujeito a “vazamento” de desmate, que terá regras mais rígidas para a Amazônia.
A nova regulação proíbe a entrada no mercado europeu de commodities produzidas em áreas desmatadas após 31 de dezembro de 2020. Por sua abrangência e detalhamento, a regra europeia tende a ser usada por outros importadores de commodities além da UE.
Apesar das intensas campanhas de ambientalistas, a vegetação nativa em outras áreas arborizadas ficou fora da nova lei. “Mais uma vez, o Cerrado é colocado como bioma de sacrifício”, disse Guilherme Eidt, assessor de Políticas Públicas do Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), em nota do Observatório do Clima sobre o marco legal.
“Assim como na Amazônia, o desmatamento no Cerrado não parou de crescer. No Cerrado, a situação é preocupante porque o bioma já foi proporcionalmente mais devastado que a Amazônia. A maior parte do desmate ocorre em áreas privadas, e mesmo assim tem indícios de ilegalidade, segundo dados do MapBiomas. Estamos demolindo a caixa d’água do país, e nem as empresas de commodities, nem os mercados consumidores parecem incomodados com isso”, disse o secretário executivo do Observatório do Clima, Marcio Astrini.
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